sábado, 24 de janeiro de 2009

MENSAGEM DO PAPA BENTO XVI PARA O 43º DIA MUNDIAL DAS COMUNICAÇÕES SOCIAIS

"Novas tecnologias, novas relações. Promover uma cultura de respeito, de diálogo, de amizade."

24 de Maio de 2009



Amados irmãos e irmãs,


Aproximando-se o Dia Mundial das Comunicações Sociais, é com alegria que me dirijo a vós para expor-vos algumas minhas reflexões sobre o tema escolhido para este ano: Novas tecnologias, novas relações. Promover uma cultura de respeito, de diálogo, de amizade. Com efeito, as novas tecnologias digitais estão a provocar mudanças fundamentais nos modelos de comunicação e nas relações humanas. Estas mudanças são particularmente evidentes entre os jovens que cresceram em estreito contacto com estas novas técnicas de comunicação e, consequentemente, sentem-se à vontade num mundo digital que entretanto para nós, adultos que tivemos de aprender a compreender e apreciar as oportunidades por ele oferecidas à comunicação, muitas vezes parece estranho. Por isso, na mensagem deste ano, o meu pensamento dirige-se de modo particular a quem faz parte da chamada geração digital: com eles quero partilhar algumas ideias sobre o potencial extraordinário das novas tecnologias, quando usadas para favorecerem a compreensão e a solidariedade humana. Estas tecnologias são um verdadeiro dom para a humanidade: por isso devemos fazer com que as vantagens que oferecem sejam postas ao serviço de todos os seres humanos e de todas as comunidades, sobretudo de quem está necessitado e é vulnerável.



A facilidade de acesso a telemóveis e computadores juntamente com o alcance global e a omnipresença da internet criou uma multiplicidade de vias através das quais é possível enviar, instantaneamente, palavras e imagens aos cantos mais distantes e isolados do mundo: trata-se claramente duma possibilidade que era impensável para as gerações anteriores. De modo especial os jovens deram-se conta do enorme potencial que têm os novos «media» para favorecer a ligação, a comunicação e a compreensão entre indivíduos e comunidade, e usam-nos para comunicar com os seus amigos, encontrar novos, criar comunidades e redes, procurar informações e notícias, partilhar as próprias ideias e opiniões. Desta nova cultura da comunicação derivam muitos benefícios: as famílias podem permanecer em contacto apesar de separadas por enormes distâncias, os estudantes e os investigadores têm um acesso mais fácil e imediato aos documentos, às fontes e às descobertas científicas e podem por conseguinte trabalhar em equipa a partir de lugares diversos; além disso a natureza interactiva dos novos «media» facilita formas mais dinâmicas de aprendizagem e comunicação que contribuem para o progresso social.



Embora seja motivo de maravilha a velocidade com que as novas tecnologias evoluíram em termos de segurança e eficiência, não deveria surpreender-nos a sua popularidade entre os utentes porque elas respondem ao desejo fundamental que têm as pessoas de se relacionar umas com as outras. Este desejo de comunicação e amizade está radicado na nossa própria natureza de seres humanos, não se podendo compreender adequadamente só como resposta às inovações tecnológicas. À luz da mensagem bíblica, aquele deve antes ser lido como reflexo da nossa participação no amor comunicativo e unificante de Deus, que quer fazer da humanidade inteira uma única família. Quando sentimos a necessidade de nos aproximar das outras pessoas, quando queremos conhecê-las melhor e dar-nos a conhecer, estamos a responder à vocação de Deus - uma vocação que está gravada na nossa natureza de seres criados à imagem e semelhança de Deus, o Deus da comunicação e da comunhão.



O desejo de interligação e o instinto de comunicação, que se revelam tão naturais na cultura contemporânea, na verdade são apenas manifestações modernas daquela propensão fundamental e constante que têm os seres humanos para se ultrapassarem a si mesmos entrando em relação com os outros. Na realidade, quando nos abrimos aos outros, damos satisfação às nossas carências mais profundas e tornamo-nos de forma mais plena humanos. De facto amar é aquilo para que fomos projectados pelo Criador. Naturalmente não falo de relações passageiras, superficiais; falo do verdadeiro amor, que constitui o centro da doutrina moral de Jesus: «Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças» e «amarás o teu próximo como a ti mesmo» (cf. Mc 12, 30-31). Reflectindo, à luz disto, sobre o significado das novas tecnologias, é importante considerar não só a sua indubitável capacidade de favorecer o contacto entre as pessoas, mas também a qualidade dos conteúdos que aquelas são chamadas a pôr em circulação. Desejo encorajar todas as pessoas de boa vontade, activas no mundo emergente da comunicação digital, a que se empenhem na promoção de uma cultura do respeito, do diálogo, da amizade.



Assim, aqueles que operam no sector da produção e difusão de conteúdos dos novos «media» não podem deixar de sentir-se obrigados ao respeito da dignidade e do valor da pessoa humana. Se as novas tecnologias devem servir o bem dos indivíduos e da sociedade, então aqueles que as usam devem evitar a partilha de palavras e imagens degradantes para o ser humano e, consequentemente, excluir aquilo que alimenta o ódio e a intolerância, envilece a beleza e a intimidade da sexualidade humana, explora os débeis e os inermes.



As novas tecnologias abriram também a estrada para o diálogo entre pessoas de diferentes países, culturas e religiões. A nova arena digital, o chamado cyberspace, permite encontrar-se e conhecer os valores e as tradições alheias. Contudo, tais encontros, para ser fecundos, requerem formas honestas e correctas de expressão juntamente com uma escuta atenciosa e respeitadora. O diálogo deve estar radicado numa busca sincera e recíproca da verdade, para realizar a promoção do desenvolvimento na compreensão e na tolerância. A vida não é uma mera sucessão de factos e experiências: é antes a busca da verdade, do bem e do belo. É precisamente com tal finalidade que realizamos as nossas opções, exercitamos a nossa liberdade e nisso - isto é, na verdade, no bem e no belo - encontramos felicidade e alegria. É preciso não se deixar enganar por aqueles que andam simplesmente à procura de consumidores num mercado de possibilidades indiscriminadas, onde a escolha em si mesma se torna o bem, a novidade se contrabandeia por beleza, a experiência subjectiva sobrepõem-se à verdade.



O conceito de amizade logrou um renovado lançamento no vocabulário das redes sociais digitais que surgiram nos últimos anos. Este conceito é uma das conquistas mais nobres da cultura humana. Nas nossas amizades e através delas crescemos e desenvolvemo-nos como seres humanos. Por isso mesmo, desde sempre a verdadeira amizade foi considerada uma das maiores riquezas de que pode dispor o ser humano. Por este motivo, é preciso prestar atenção a não banalizar o conceito e a experiência da amizade. Seria triste se o nosso desejo de sustentar e desenvolver on-line as amizades fosse realizado à custa da nossa disponibilidade para a família, para os vizinhos e para aqueles que encontramos na realidade do dia a dia, no lugar de trabalho, na escola, nos tempos livres. De facto, quando o desejo de ligação virtual se torna obsessivo, a consequência é que a pessoa se isola, interrompendo a interacção social real. Isto acaba por perturbar também as formas de repouso, de silêncio e de reflexão necessárias para um são desenvolvimento humano.



A amizade é um grande bem humano, mas esvaziar-se-ia do seu valor, se fosse considerada fim em si mesma. Os amigos devem sustentar-se e encorajar-se reciprocamente no desenvolvimento dos seus dons e talentos e na sua colocação ao serviço da comunidade humana. Neste contexto, é gratificante ver a aparição de novas redes digitais que procuram promover a solidariedade humana, a paz e a justiça, os direitos humanos e o respeito pela vida e o bem da criação. Estas redes podem facilitar formas de cooperação entre povos de diversos contextos geográficos e culturais, consentindo-lhes de aprofundar a comum humanidade e o sentido de corresponsabilidade pelo bem de todos. Todavia devemo-nos preocupar por fazer com que o mundo digital, onde tais redes podem ser constituídas, seja um mundo verdadeiramente acessível a todos. Seria um grave dano para o futuro da humanidade, se os novos instrumentos da comunicação, que permitem partilhar saber e informações de maneira mais rápida e eficaz, não fossem tornados acessíveis àqueles que já são económica e socialmente marginalizados ou se contribuíssem apenas para incrementar o desnível que separa os pobres das novas redes que se estão a desenvolver ao serviço da informação e da socialização humana.



Quero concluir esta mensagem dirigindo-me especialmente aos jovens católicos, para os exortar a levarem para o mundo digital o testemunho da sua fé. Caríssimos, senti-vos comprometidos a introduzir na cultura deste novo ambiente comunicador e informativo os valores sobre os quais assenta a vossa vida. Nos primeiros tempos da Igreja, os Apóstolos e os seus discípulos levaram a Boa Nova de Jesus ao mundo greco-romano: como então a evangelização, para ser frutuosa, requereu uma atenta compreensão da cultura e dos costumes daqueles povos pagãos com o intuito de tocar as suas mentes e corações, assim agora o anúncio de Cristo no mundo das novas tecnologias supõe um conhecimento profundo das mesmas para se chegar a uma sua conveniente utilização. A vós, jovens, que vos encontrais quase espontaneamente em sintonia com estes novos meios de comunicação, compete de modo particular a tarefa da evangelização deste «continente digital». Sabei assumir com entusiasmo o anúncio do Evangelho aos vossos coetâneos! Conheceis os seus medos e as suas esperanças, os seus entusiasmos e as suas desilusões: o dom mais precioso que lhes podeis oferecer é partilhar com eles a «boa nova» de um Deus que Se fez homem, sofreu, morreu e ressuscitou para salvar a humanidade. O coração humano anseia por um mundo onde reine o amor, onde os dons sejam compartilhados, onde se construa a unidade, onde a liberdade encontre o seu significado na verdade e onde a identidade de cada um se realize numa respeitosa comunhão. A estas expectativas pode dar resposta a fé: sede os seus arautos! Sabei que o Papa vos acompanha com a sua oração e a sua bênção.



Vaticano, 24 de Janeiro - dia de São Francisco de Sales - de 2009.




BENEDICTUS PP. XVI

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

PAPA AO ENCONTRO DA 'GERAÇÃO DIGITAL': PRIMEIRO VÍDEO NO YOUTUBE

Cidade do Vaticano, 23 jan (RV) - Hoje é um dia histórico para a Santa Sé: desde as 12h, pode-se ver no site Youtube a imagem e a voz do papa. Hoje também foi apresentada na Sala de Imprensa do Vaticano a mensagem de Bento XVI para o Dia Mundial das Comunicações sociais, que se celebra em 24 de janeiro. No documento, o pontífice se dirige especialmente aos jovens, à chamada ‘geração digital’, para que dela parta o impulso para evangelizar através da Internet, ‘verdadeiro dom para a humanidade’. A web deve se tornar um local de promoção dos grandes valores da existência e não de banalização das relações humanas.
A partir de hoje, entre os milhões de vídeos disponíveis no Youtube, pode-se encontrar também a informação vaticana produzida cotidianamente pela Rádio Vaticano e pelo Centro Televisivo Vaticano com as mesmas características de interatividade que tornaram o site popular e tão difuso entre os jovens. É a eles que o papa se dirige com sua mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais.

Bento XVI desenvolve o binômio “Novas tecnologias e novas relações”, citando as luzes e sobras da Internet: desde o extraordinário potencial às ameaças de quem utiliza a rede para difundir ‘palavras e imagens degradantes para o ser humano’. O papa encoraja os trabalhadores deste setor emergente da mídia a promoverem uma ‘cultura do respeito, do diálogo, da amizade’; e condena quem utiliza a Internet para alimentar o ódio e a intolerância, para desprezar a beleza e a intimidade da sexualidade humana, para explorar ‘os mais frágeis e indefesos’.

Neste sentido, Bento XVI agradece e elogia as redes digitais que ‘tentam promover a solidariedade humana, a paz e a justiça; os direitos humanos, especialmente nas áreas do mundo onde o acesso à Internet é penalizado pelo grande ‘abismo tecnológico’. Em sua mensagem, o papa frisa que seria um grande dano para o futuro da humanidade se os novos instrumentos da comunicação, que permitem compartilhar conhecimentos e informações rápida e eficazmente, não se tornassem acessíveis aos povos econômica e socialmente marginalizados.

O papa dedica um capítulo da mensagem às pessoas que se conectam por trabalho ou lazer, e interpreta o ‘desejo de se conectar e o instinto de se comunicar’ como a natural propensão do ser humano de se relacionar com os outros. Bento XVI reconhece que este desejo está em nossa natureza como reflexo de nossa participação no amor comunicativo e unificante de Deus, que quer fazer de toda a humanidade uma só família.

O papa recorda também os muitos benefícios trazidos pela rede: famílias podem permanecer em contato mesmo quando estão divididas por grandes distâncias, estudantes e pesquisadores acessam rápida e facilmente a documentos, fontes e descobertas científicas. Todavia, os perigos são muitos e o papa alerta os jovens a não banalizarem o conceito de amizade. “Quando o desejo de contatos virtuais se torna obsessivo – escreve – a conseqüência é que a pessoa se isola, interrompendo a interação social real; e os modelos de repouso, silêncio e reflexão – necessários para o desenvolvimento salutar – são alterados”.

Enfim, o último apelo é lançado aos jovens católicos: “A rede é um ‘continente digital’ infinito, no qual vocês são chamados a testemunhar o Evangelho”.O papa conclui sua mensagem com uma comparação: “Nos primeiros tempos da Igreja – recorda – os Apóstolos e seus discípulos levaram a Boa Nova de Jesus ao mundo greco-romano: hoje, como ontem, para ser frutuosa, a evangelização requer a compreensão da cultura e dos costumes, para tocar as mentes e corações. O anúncio de Cristo no mundo das novas tecnologias supõe um conhecimento mais profundo, para ser adequadamente utilizado”.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Dia Mundial da PAZ


MENSAGEM DE SUA SANTIDADE BENTO XVI PARA A CELEBRAÇÃO DO DIA MUNDIAL DA PAZ
1 DE JANEIRO DE 2009




COMBATER A POBREZA, CONSTRUIR A PAZ

1. Desejo, também no início deste novo ano, fazer chegar os meus votos de paz a todos e, com esta minha Mensagem, convidá-los a reflectir sobre o tema: Combater a pobreza, construir a paz. Já o meu venerado antecessor João Paulo II, na Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1993, sublinhara as repercussões negativas que acaba por ter sobre a paz a situação de pobreza em que versam populações inteiras. De facto, a pobreza encontra-se frequentemente entre os factores que favorecem ou agravam os conflitos, mesmo os conflitos armados. Estes últimos, por sua vez, alimentam trágicas situações de pobreza. « Vai-se afirmando (...), com uma gravidade sempre maior – escrevia João Paulo II –, outra séria ameaça à paz: muitas pessoas, mais ainda, populações inteiras vivem hoje em condições de extrema pobreza. A disparidade entre ricos e pobres tornou-se mais evidente, mesmo nas nações economicamente mais desenvolvidas. Trata-se de um problema que se impõe à consciência da humanidade, visto que as condições em que se encontra um grande número de pessoas são tais que ofendem a sua dignidade natural e, consequentemente, comprometem o autêntico e harmónico progresso da comunidade mundial ».(1)



2. Neste contexto, combater a pobreza implica uma análise atenta do fenómeno complexo que é a globalização. Tal análise é já importante do ponto de vista metodológico, porque convida a pôr em prática o fruto das pesquisas realizadas pelos economistas e sociólogos sobre tantos aspectos da pobreza. Mas a evocação da globalização deveria revestir também um significado espiritual e moral, solicitando a olhar os pobres bem cientes da perspectiva que todos somos participantes de um único projecto divino: chamados a constituir uma única família, na qual todos – indivíduos, povos e nações – regulem o seu comportamento segundo os princípios de fraternidade e responsabilidade.
Em tal perspectiva, é preciso ter uma visão ampla e articulada da pobreza. Se esta fosse apenas material, para iluminar as suas principais características, seriam suficientes as ciências sociais que nos ajudam a medir os fenómenos baseados sobretudo em dados de tipo quantitativo. Sabemos porém que existem pobrezas imateriais, isto é, que não são consequência directa e automática de carências materiais. Por exemplo, nas sociedades ricas e avançadas, existem fenómenos de marginalização, pobreza relacional, moral e espiritual: trata-se de pessoas desorientadas interiormente, que, apesar do bem-estar económico, vivem diversas formas de transtorno. Penso, por um lado, no chamado « subdesenvolvimento moral » (2) e, por outro, nas consequências negativas do « superdesenvolvimento ».(3) Não esqueço também que muitas vezes, nas sociedades chamadas « pobres », o crescimento económico é entravado por impedimentos culturais, que não permitem uma conveniente utilização dos recursos. Seja como for, não restam dúvidas de que toda a forma de pobreza imposta tem, na sua raiz, a falta de respeito pela dignidade transcendente da pessoa humana. Quando o homem não é visto na integridade da sua vocação e não se respeitam as exigências duma verdadeira « ecologia humana »,(4) desencadeiam-se também as dinâmicas perversas da pobreza, como é evidente em alguns âmbitos sobre os quais passo a deter brevemente a minha atenção.

Pobreza e implicações morais.

3. A pobreza aparece muitas vezes associada, como se fosse sua causa, com o desenvolvimento demográfico. Em consequência disso, realizam-se campanhas de redução da natalidade, promovidas a nível internacional, até com métodos que não respeitam a dignidade da mulher nem o direito dos esposos a decidirem responsavelmente o número dos filhos (5) e que muitas vezes – facto ainda mais grave – não respeitam sequer o direito à vida. O extermínio de milhões de nascituros, em nome da luta à pobreza, constitui na realidade a eliminação dos mais pobres dentre os seres humanos. Contra tal presunção, fala o dado seguinte: enquanto, em 1981, cerca de 40% da população mundial vivia abaixo da linha de pobreza absoluta, hoje tal percentagem aparece substancialmente reduzida a metade, tendo saído da pobreza populações caracterizadas precisamente por um incremento demográfico notável. O dado agora assinalado põe em evidência que existiriam os recursos para se resolver o problema da pobreza, mesmo no caso de um crescimento da população. E não se há-de esquecer que, desde o fim da segunda guerra mundial até hoje, a população da terra cresceu quatro mil milhões e tal fenómeno diz respeito, em larga medida, a países que surgiram recentemente na cena internacional como novas potências económicas e conheceram um rápido desenvolvimento graças precisamente ao elevado número dos seus habitantes. Além disso, dentre as nações que mais se desenvolveram, aquelas que detêm maiores índices de natalidade gozam de melhores potencialidades de progresso. Por outras palavras, a população confirma-se como uma riqueza e não como um factor de pobreza.



4. Outro âmbito de preocupação são as pandemias, como por exemplo a malária, a tuberculose e a SIDA, pois, na medida em que atingem os sectores produtivos da população, influem enormemente no agravamento das condições gerais do país. As tentativas para travar as consequências destas doenças na população nem sempre alcançam resultados significativos. E sucede além disso que os países afectados por algumas dessas pandemias se vêem, ao querer enfrentá-las, sujeitos a chantagem por parte de quem condiciona a ajuda económica à actuação de políticas contrárias à vida. Sobretudo a SIDA, dramática causa de pobreza, é difícil combatê-la se não se enfrentarem as problemáticas morais associadas com a difusão do vírus. É preciso, antes de tudo, fomentar campanhas que eduquem, especialmente os jovens, para uma sexualidade plenamente respeitadora da dignidade da pessoa; iniciativas realizadas nesta linha já deram frutos significativos, fazendo diminuir a difusão da SIDA. Depois há que colocar à disposição também das populações pobres os remédios e os tratamentos necessários; isto supõe uma decidida promoção da pesquisa médica e das inovações terapêuticas e, quando for preciso, uma aplicação flexível das regras internacionais de protecção da propriedade intelectual, de modo que a todos fiquem garantidos os necessários tratamentos sanitários de base.



5. Terceiro âmbito, que é objecto de atenção nos programas de luta contra a pobreza e que mostra a sua intrínseca dimensão moral, é a pobreza das crianças. Quando a pobreza atinge uma família, as crianças são as suas vítimas mais vulneráveis: actualmente quase metade dos que vivem em pobreza absoluta é constituída por crianças. O facto de olhar a pobreza colocando-se da parte das crianças induz a reter como prioritários os objectivos que mais directamente lhes dizem respeito, como por exemplo os cuidados maternos, o serviço educativo, o acesso às vacinas, aos cuidados médicos e à água potável, a defesa do ambiente e sobretudo o empenho na defesa da família e da estabilidade das relações no seio da mesma. Quando a família se debilita, os danos recaem inevitavelmente sobre as crianças. Onde não é tutelada a dignidade da mulher e da mãe, a ressentir-se do facto são de novo principalmente os filhos.



6. Quarto âmbito que, do ponto de vista moral, merece particular atenção é a relação existente entre desarmamento e progresso. Gera preocupação o actual nível global de despesa militar. É que, como já tive ocasião de sublinhar, « os ingentes recursos materiais e humanos empregados para as despesas militares e para os armamentos, na realidade, são desviados dos projectos de desenvolvimento dos povos, especialmente dos mais pobres e necessitados de ajuda. E isto está contra o estipulado na própria Carta das Nações Unidas, que empenha a comunidade internacional, e cada um dos Estados em particular, a ‘‘promover o estabelecimento e a manutenção da paz e da segurança internacional com o mínimo dispêndio dos recursos humanos e económicos mundiais para os armamentos'' (art. 26) ».(6)
Uma tal conjuntura, longe de facilitar, obstaculiza seriamente a consecução dos grandes objectivos de desenvolvimento da comunidade internacional. Além disso, um excessivo aumento da despesa militar corre o risco de acelerar uma corrida aos armamentos que provoca faixas de subdesenvolvimento e desespero, transformando-se assim, paradoxalmente, em factor de instabilidade, tensão e conflito. Como sensatamente afirmou o meu venerado antecessor Paulo VI, « o desenvolvimento é o novo nome da paz ».(7) Por isso, os Estados são chamados a fazer uma séria reflexão sobre as razões mais profundas dos conflitos, frequentemente atiçados pela injustiça, e a tomar providências com uma corajosa autocrítica. Se se chegar a uma melhoria das relações, isso deverá consentir uma redução das despesas para armamentos. Os recursos poupados poderão ser destinados para projectos de desenvolvimento das pessoas e dos povos mais pobres e necessitados: o esforço despendido em tal direcção é um serviço à paz no seio da família humana.



7. Quinto âmbito na referida luta contra a pobreza material diz respeito à crise alimentar actual, que põe em perigo a satisfação das necessidades de base. Tal crise é caracterizada não tanto pela insuficiência de alimento, como sobretudo pela dificuldade de acesso ao mesmo e por fenómenos especulativos e, consequentemente, pela falta de um reajustamento de instituições políticas e económicas que seja capaz de fazer frente às necessidades e às emergências. A má nutrição pode também provocar graves danos psicofísicos nas populações, privando muitas pessoas das energias de que necessitam para sair, sem especiais ajudas, da sua situação de pobreza. E isto contribui para alargar a distância angular das desigualdades, provocando reacções que correm o risco de tornar-se violentas. Todos os dados sobre o andamento da pobreza relativa nos últimos decénios indicam um aumento do fosso entre ricos e pobres. Causas principais de tal fenómeno são, sem dúvida, por um lado a evolução tecnológica, cujos benefícios se concentram na faixa superior da distribuição do rendimento, e por outro a dinâmica dos preços dos produtos industriais, que crescem muito mais rapidamente do que os preços dos produtos agrícolas e das matérias primas na posse dos países mais pobres. Isto faz com que a maior parte da população dos países mais pobres sofra uma dupla marginalização, ou seja, em termos de rendimentos mais baixos e de preços mais altos.



Luta contra a pobreza e solidariedade global



8. Uma das estradas mestras para construir a paz é uma globalização que tenha em vista os interesses da grande família humana.(8) Mas, para guiar a globalização é preciso uma forte solidariedade global (9) entre países ricos e países pobres, como também no âmbito interno de cada uma das nações, incluindo ricas. É necessário um « código ético comum »,(10) cujas normas não tenham apenas carácter convencional mas estejam radicadas na lei natural inscrita pelo Criador na consciência de todo o ser humano (cf. Rm 2, 14-15). Porventura não sente cada um de nós, no íntimo da consciência, o apelo a dar a própria contribuição para o bem comum e a paz social? A globalização elimina determinadas barreiras, mas isto não significa que não possa construir outras novas; aproxima os povos, mas a proximidade geográfica e temporal não cria, de per si, as condições para uma verdadeira comunhão e uma paz autêntica. A marginalização dos pobres da terra só pode encontrar válidos instrumentos de resgate na globalização, se cada homem se sentir pessoalmente atingido pelas injustiças existentes no mundo e pelas violações dos direitos humanos ligadas com elas. A Igreja, que é « sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano »,(11) continuará a dar a sua contribuição para que sejam superadas as injustiças e incompreensões e se chegue a construir um mundo mais pacífico e solidário.



9. No campo do comércio internacional e das transacções financeiras, temos hoje em acção processos que permitem integrar positivamente as economias, contribuindo para o melhoramento das condições gerais; mas há também processos de sentido oposto, que dividem e marginalizam os povos, criando perigosas premissas para guerras e conflitos. Nos decénios posteriores à segunda guerra mundial, o comércio internacional de bens e serviços cresceu de forma extraordinariamente rápida, com um dinamismo sem precedentes na história. Grande parte do comércio mundial interessou os países de antiga industrialização, vindo significativamente juntar-se-lhes muitos países que sobressaíram tornando-se relevantes. Mas há outros países de rendimento baixo que estão ainda gravemente marginalizados dos fluxos comerciais. O seu crescimento ressentiu-se negativamente com a rápida descida verificada, nos últimos decénios, nos preços dos produtos primários, que constituem a quase totalidade das suas exportações. Nestes países, em grande parte africanos, a dependência das exportações de produtos primários continua a constituir um poderoso factor de risco. Quero reiterar aqui um apelo para que todos os países tenham as mesmas possibilidades de acesso ao mercado mundial, evitando exclusões e marginalizações.
10. Idêntica reflexão pode fazer-se a propósito do mercado financeiro, que toca um dos aspectos primários do fenómeno da globalização, devido ao progresso da electrónica e às políticas de liberalização dos fluxos de dinheiro entre os diversos países. A função objectivamente mais importante do mercado financeiro, que é a de sustentar a longo prazo a possibilidade de investimentos e consequentemente de desenvolvimento, aparece hoje muito frágil: sofre as consequências negativas de um sistema de transacções financeiras – a nível nacional e global – baseadas sobre uma lógica de brevíssimo prazo, que busca o incremento do valor das actividades financeiras e se concentra na gestão técnica das diversas formas de risco. A própria crise recente demonstra como a actividade financeira seja às vezes guiada por lógicas puramente auto-referenciais e desprovidas de consideração pelo bem comum a longo prazo. O nivelamento dos objectivos dos operadores financeiros globais para o brevíssimo prazo reduz a capacidade de o mercado financeiro realizar a sua função de ponte entre o presente e o futuro: apoio à criação de novas oportunidades de produção e de trabalho a longo prazo. Uma actividade financeira confinada no breve e brevíssimo prazo torna-se perigosa para todos, inclusivamente para quem consegue beneficiar dela durante as fases de euforia financeira.(12)



11. Segue-se de tudo isto que a luta contra a pobreza requer uma cooperação nos planos económico e jurídico que permita à comunidade internacional e especialmente aos países pobres individuarem e actuarem soluções coordenadas para enfrentar os referidos problemas através da realização de um quadro jurídico eficaz para a economia. Além disso, requer estímulos para se criarem instituições eficientes e participativas, bem como apoios para lutar contra a criminalidade e promover uma cultura da legalidade. Por outro lado, não se pode negar que, na origem de muitos falimentos na ajuda aos países pobres, estão as políticas vincadamente assistencialistas. Investir na formação das pessoas e desenvolver de forma integrada uma cultura específica da iniciativa parece ser actualmente o verdadeiro projecto a médio e longo prazo. Se as actividades económicas precisam de um contexto favorável para se desenvolver, isto não significa que a atenção se deva desinteressar dos problemas do rendimento. Embora se tenha oportunamente sublinhado que o aumento do rendimento pro capite não pode de forma alguma constituir o fim da acção político-económica, todavia não se deve esquecer que o mesmo representa um instrumento importante para se alcançar o objectivo da luta contra a fome e contra a pobreza absoluta. Deste ponto de vista, seja banida a ilusão de que uma política de pura redistribuição da riqueza existente possa resolver o problema de maneira definitiva. De facto, numa economia moderna, o valor da riqueza depende em medida determinante da capacidade de criar rendimento presente e futuro. Por isso, a criação de valor surge como um elo imprescindível, que se há- de ter em conta se se quer lutar contra a pobreza material de modo eficaz e duradouro.



12. Colocar os pobres em primeiro lugar implica, finalmente, que se reserve espaço adequado para uma correcta lógica económica por parte dos agentes do mercado internacional, uma correcta lógica política por parte dos agentes institucionais e uma correcta lógica participativa capaz de valorizar a sociedade civil local e internacional. Hoje os próprios organismos internacionais reconhecem o valor e a vantagem das iniciativas económicas da sociedade civil ou das administrações locais para favorecer o resgate e a integração na sociedade daquelas faixas da população que muitas vezes estão abaixo do limiar de pobreza extrema mas, ao mesmo tempo, dificilmente se consegue fazer-lhes chegar as ajudas oficiais. A história do progresso económico do século XX ensina que boas políticas de desenvolvimento são confiadas à responsabilidade dos homens e à criação de positivas sinergias entre mercados, sociedade civil e Estados. Particularmente a sociedade civil assume um papel crucial em todo o processo de desenvolvimento, já que este é essencialmente um fenómeno cultural e a cultura nasce e se desenvolve nos diversos âmbitos da vida civil.(13)



13. Como observava o meu venerado antecessor João Paulo II, a globalização « apresenta-se com uma acentuada característica de ambivalência »,(14) pelo que há- de ser dirigida com clarividente sabedoria. Faz parte de tal sabedoria ter em conta primariamente as exigências dos pobres da terra, superando o escândalo da desproporção que se verifica entre os problemas da pobreza e as medidas predispostas pelos homens para os enfrentar. A desproporção é de ordem tanto cultural e política como espiritual e moral. De facto, tais medidas detêm-se frequentemente nas causas superficiais e instrumentais da pobreza, sem chegar às que se abrigam no coração humano, como a avidez e a estreiteza de horizontes. Os problemas do desenvolvimento, das ajudas e da cooperação internacional são às vezes enfrentados sem um verdadeiro envolvimento das pessoas, mas apenas como questões técnicas que se reduzem à preparação de estruturas, elaboração de acordos tarifários, atribuição de financiamentos anónimos. Inversamente, a luta contra a pobreza precisa de homens e mulheres que vivam profundamente a fraternidade e sejam capazes de acompanhar pessoas, famílias e comunidades por percursos de autêntico progresso humano.



Conclusão



14. Na Encíclica Centesimus annus, João Paulo II advertia para a necessidade de « abandonar a mentalidade que considera os pobres – pessoas e povos – como um fardo e como importunos maçadores, que pretendem consumir tudo o que os outros produziram ». « Os pobres – escrevia ele – pedem o direito de participar no usufruto dos bens materiais e de fazer render a sua capacidade de trabalho, criando assim um mundo mais justo e mais próspero para todos ».(15) No mundo global de hoje, resulta de forma cada vez mais evidente que só é possível construir a paz, se se assegurar a todos a possibilidade de um razoável crescimento: de facto, as consequências das distorções de sistemas injustos, mais cedo ou mais tarde, fazem-se sentir sobre todos. Deste modo, só a insensatez pode induzir a construir um palácio dourado, tendo porém ao seu redor o deserto e o degrado. Por si só, a globalização não consegue construir a paz; antes, em muitos casos, cria divisões e conflitos. A mesma põe a descoberto sobretudo uma urgência: a de ser orientada para um objectivo de profunda solidariedade que aponte para o bem de cada um e de todos. Neste sentido, a globalização há-de ser vista como uma ocasião propícia para realizar algo de importante na luta contra a pobreza e colocar à disposição da justiça e da paz recursos até agora impensáveis.



15. Desde sempre se interessou pelos pobres a doutrina social da Igreja. Nos tempos da Encíclica Rerum novarum, pobres eram sobretudo os operários da nova sociedade industrial; no magistério social de Pio XI, Pio XII, João XXIII, Paulo VI e João Paulo II, novas pobrezas foram vindo à luz à medida que o horizonte da questão social se alargava até assumir dimensões mundiais.(16) Este alargamento da questão social à globalidade não deve ser considerado apenas no sentido duma extensão quantitativa mas também dum aprofundamento qualitativo sobre o homem e as necessidades da família humana. Por isso a Igreja, ao mesmo tempo que segue com atenção os fenómenos actuais da globalização e a sua incidência sobre as pobrezas humanas, aponta os novos aspectos da questão social, não só em extensão mas também em profundidade, no que se refere à identidade do homem e à sua relação com Deus. São princípios de doutrina social que tendem a esclarecer os vínculos entre pobreza e globalização e a orientar a acção para a construção da paz. Dentre tais princípios, vale a pena recordar aqui, de modo particular, o « amor preferencial pelos pobres »,(17) à luz do primado da caridade testemunhado por toda a tradição cristã a partir dos primórdios da Igreja (cf. Act 4, 32-37; 1 Cor 16, 1; 2 Cor 8-9; Gal 2, 10).
« Cada um entregue-se à tarefa que lhe incumbe com a maior diligência possível » – escrevia em 1891 Leão XIII, acrescentando: « Quanto à Igreja, a sua acção não faltará em nenhum momento ».(18) Esta consciência acompanha hoje também a acção da Igreja em favor dos pobres, nos quais vê Cristo,(19) sentindo ressoar constantemente em seu coração o mandato do Príncipe da paz aos Apóstolos: « Vos date illis manducare – dai-lhes vós mesmos de comer » (Lc 9, 13). Fiel a este convite do seu Senhor, a Comunidade Cristã não deixará, pois, de assegurar o seu apoio à família humana inteira nos seus impulsos de solidariedade criativa, tendentes não só a partilhar o supérfluo, mas sobretudo a alterar « os estilos de vida, os modelos de produção e de consumo, as estruturas consolidadas de poder que hoje regem as sociedades ».(20) Assim, a cada discípulo de Cristo bem como a toda a pessoa de boa vontade, dirijo, no início de um novo ano, um caloroso convite a alargar o coração às necessidades dos pobres e a fazer tudo o que lhe for concretamente possível para ir em seu socorro. De facto, aparece como indiscutivelmente verdadeiro o axioma « combater a pobreza é construir a paz ».



Vaticano, 8 de Dezembro de 2008.




BENEDICTUS PP. XVI





(1) Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1993, 1.
(2) Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio, 19.
(3) João Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis, 28.
(4) João Paulo II, Carta enc. Centesimus annus, 38.
(5) Cf. Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio, 37; João Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis, 25.
(6) Bento XVI, Carta ao Cardeal Renato Rafael Martino por ocasião do Seminário Internacional organizado pelo Conselho Pontifício « Justiça e Paz » sobre o tema « Desarmamento, desenvolvimento e paz. Perspectivas para um desarmamento integral », 10 de Abril de 2008: L'Osservatore Romano (13/IV/2008), p. 8.
(7) Carta enc. Populorum progressio, 87.
(8) Cf. João Paulo II, Carta enc. Centesimus annus, 58.
(9) Cf. João Paulo II, Discurso na Audiência às Associações Cristãs de Trabalhadores Italianos [ACLI] (27 de Abril de 2002), 4: Insegnamenti di Giovanni Paolo II, XXV/1 [2002], 637.
(10) João Paulo II, Discurso à Assembleia Plenária da Academia Pontifícia das Ciências Sociais (27 de Abril de 2001), 4: Insegnamenti di Giovanni Paolo II, XXIV/1 [2001], 802.
(11) Concílio Ecum. Vaticano II, Const. dogm. Lumen gentium, 1.
(12) Cf. Conselho Pontifício « Justiça e Paz », Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 368.
(13) Cf. ibid., 356.
(14) Discurso na Audiência a Dirigentes de Sindicatos de Trabalhadores e de grandes Empresas, (2 de Maio de 2000), 3: Insegnamenti di Giovanni Paolo II, XXIII/1 [2000], 726.
(15) N. 28.
(16) Cf. Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio, 3.
(17) João Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis, 42; cf. Carta enc. Centesimus annus, 57.
(18) Leão XIII, Carta enc. Rerum novarum, 45.
(19) Cf. João Paulo II, Carta enc. Centesimus annus, 58.
(20) Ibid., 58.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Bênção URBI et ORBI 2008

Feliz Natal para todos, e que a Luz de Cristo Salvador ilumine os vossos corações de paz e de esperança!
Pp. Bento XVI.

sábado, 25 de outubro de 2008

Padre Fábio de Melo visita o Seminário Maior N. Sra. da Conceição


O Pe. Fábio de Melo, na última sexta-feira, visitou o Seminário Maior Nossa Senhora da Conceição para fazer a doação de parte da arrecadação do Show "Vida".
Foram cerca de 2 horas de permanência nas instalações do Seminário, onde encontrou-se com a imprensa, bem como com os seminaristas e formadores da Instituição Seminário Maior.


Falou da alegria de poder estar ajudando diversas entidades em todo o Brasil com o seu show, bem como de estar numa casa de formação de futuros sacerdotes.




Questionado pelos jornalistas sobre a sua carreira de cantor e sua vocação sacerdotal, ele afirmou que "tudo o que está acontecendo é a graça de Deus se manifestando, a realização do prejeto de Deus em minha vida e na vida dos que são tocados pelo meu trabalho". Ainda questionado sobre sua relação com o Pe. Marcelo Rossi, disse que respeita o trabalho dele e que tem uma boa relação com o mesmo: "somos irmãos no sacerdócio e temos trabalhado para que as pessoas tenham uma experiência pessoal com Deus, sendo assim não trabalhamos para nós mesmos mas, para que a mensagem de Jesus seja levada a todos".


Antes de deixar o complexo do Seminário Maior, cumprimentou as funcionárias da casa que se encontravam do lado de fora querendo vê-lo de perto, bem como esteve na capela onde por alguns momentos rezou diante do Tabernáculo.
O Pe. Fábio tem um programa de televisão na Canção Nova, gravou 11 cd's e possui vários livros de sua autoria.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

CARDEAL DZIWISZ REVELA NOTÍCIA INÉDITA SOBRE JOÃO PAULO II

Cidade do Vaticano, 16 out (RV) – Durante a coletiva de imprensa, ontem, no Vaticano, sobre a apresentação do filme “Testemunho”, extraído do livro: “Uma vida com Karol”, de autoria do Cardeal-arcebispo de Cracóvia, Stanislaw Dziwisz, e de Gianfranco Svidercoschi, foi comunicada uma notícia inédita.“Papa João Paulo II ficou ferido num ataque realizado por um padre armado com uma faca, durante a sua primeira visita a Fátima, em 1982”.

A revelação foi feita pelo Cardeal Dziwisz, que disse: "Posso revelar, agora, que o Papa ficou ferido. Quando voltamos para os seus aposentos, no complexo do Santuário de Fátima, havia sangue".


O Papa realizou o trajeto sem revelar que tinha sido ferido. Na peregrinação de 1982 à Cova da Iria, o padre espanhol Fernandez Krohn conseguiu aproximar-se de João Paulo II com um punhal em mãos.


O sacerdote pertencia a uma comunidade de católicos integristas, opositores às orientações liberais do Vaticano. O padre foi julgado e condenado por tentativa de homicídio pelo Tribunal de Ourém e teria sido expulso de Portugal, em 1985, depois de cumprir pena. (MT)

terça-feira, 7 de outubro de 2008

14 anos de História 07/10/1994 - 07/10/2008

Uma comissão extraordinária sob a prsidência de D. Luciano Cabral Duarte, arcebispo metropolitano de Aracaju (hoje emérito) e integrada por D. José Palmeira Lessa, bispo de Propriá (atual arcebispo metropolitano de Aracaju) e por D. Hildebrando Mendes Costa, bispo de Estância (hoje emérito), juntamente com o Côn. Raimundo Cruz e o Pe. Carlos Alberto dos Santos (atual Bispo de Teixeira de Freitas), ambos encadernados à Mitra Diocesana de Aracaju, após diversos estudos sobre a estrutura, local e formação, decidiu no dia 7 de outubro de 1994 pela fundação do seminário Maior e que este seria dedicado e confiado à Nossa Senhora da Conceição.

Click no Título desta postagem e conheça a História de nosso Seminário Maior!

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Eleições 2008

Dom Orani João Tempesta fala das Eleições 2008

No próximo dia 5 de outubro o Brasil irá às urnas para escolher os Vereadores e Prefeitos que deverão servir os municípios nos próximos 4 anos.

O Tribunal Superior Eleitoral está fazendo as campanhas educativas, recordando tanto o dever de todos em exercer a sua missão de cidadania indo às urnas para votar, como também a responsabilidade de quem vota sabendo escolher bem os seus candidatos.

Como estamos em momentos de descrédito por parte de muitos, estas duas campanhas ajudam, sem dúvida, o eleitor a saber de sua responsabilidade pelo destino de seu município e suas possíveis conseqüências.

Nos meios de comunicação os candidatos se revezam, partilhando os seus planos e projetos, caso eleitos. As caminhadas e carreatas se fazem pelas ruas juntamente com as visitas domiciliares propondo às pessoas as suas idéias e demonstrando o entusiasmo dos correligionários que os acompanham.

As eleições são um momento cívico muito importante, pois é a festa da Democracia. Para isso, procura-se fazer de tudo para que todos tenham os mesmo direitos, cuidando para que não haja abuso do poder econômico ou mesmo compra de votos por algum favor prestado ou algo doado. Essa busca tem gerado leis e orientações a todos os responsáveis, a fim de que tudo ocorra em ordem e com responsabilidade.

A Igreja Católica tem sido, no decorrer da história, protagonista dessas preocupações, seja pelas orientações que a cada ano a nossa Conferência Episcopal dirige a todos os católicos para que exerçam a sua obrigação de cidadania com liberdade e responsabilidade, além das possíveis orientações locais de cada Ordinário em sua circunscrição, adaptando, se for o caso, as orientações nacionais. Em geral, as orientações têm chamado a atenção de situações locais e demonstrado também que as candidaturas devem ser dos cristãos leigos, e que aos presbíteros cabe a orientação do povo na unidade eclesial e que eles, em geral, não deveriam ser candidatos, a não ser por uma autorização expressa do seu Bispo Diocesano. Isto porque os párocos devem ser um sinal de unidade em sua paróquia, que tem muitas facções partidárias e que, caso suceda o contrário, pode dividir ainda mais sua comunidade.

A assim chamada lei 9840 foi obra de um grande abaixo assinado capitaneado pela Igreja Católica com outras entidades da nossa sociedade, entre as quais a OAB. Agora, novamente, estamos empenhados em outro abaixo-assinado para entregar ao Congresso Nacional o pedido de uma outra lei para ajudar ainda mais com relação à pessoa dos candidatos: que não tenha processo de condenação criminal no judiciário para poder ser candidato. Conosco estão também entidades de renome nacional e que, neste caso, com as preocupações éticas, querem ajudar a nação com mais esta orientação.

No início da campanha deste ano, abrimos os comitês 9840 no Regional Norte 2 para possíveis denúncias, seja com um telefone comum, seja pelos vários comitês regionais e paroquiais espalhados pelo território da Arquidiocese, que chamamos de Território da Cidadania, pois, além dessa questão, estão também coletando assinaturas para o abaixo-assinado para a nova lei de iniciativa popular. Este trabalho conta, além das entidades parceiras, com a participação dos Procuradores de Justiça, Ministério Público, OAB, Tribunal Regional Eleitoral e outros.

A Igreja entende que ao fazer isto está ajudando a sociedade e está exercendo sua missão evangelizadora, pois crer em Cristo é comprometer-se com a Sua presença no irmão, e, com isso, ser presença de verdadeiro fermento, sal e luz (que cada cristão é chamado a ser), na sociedade contemporânea em transformação.

Porém, não nos restringimos apenas aos momentos de eleições para esse trabalho de conscientização. Existem pastorais permanentes para ajudar o católico que crê a saber que tem responsabilidades sociais para com seu irmão. (Mostre-me a sua fé através das obras). É o caso da Pastoral da Fé e Política, que faz parte do âmbito das Pastorais Sociais e que é trabalhada principalmente através do Conselho de Leigos, que assim exerce sua missão cristã. Os cristãos leigos têm essa primeira missão – de ser presença no mundo, além, é claro, das missões que exercem no interior da Igreja nos vários ministérios que assumem.

Esta pastoral tem como objetivo levar o cristão ao amadurecimento de sua fé e de sua missão na sociedade. Ela não faz política partidária, mas sim a grande “Política” de pensar no bem comum de toda uma cidade, estado e país. Na época das eleições ela procura ouvir, em locais sociais, os candidatos com suas propostas, levando o povo ao debate das idéias e das propostas dos candidatos. Dessa forma ela colabora para que existam esclarecimentos para o povo. Isso nunca é feito nos templos e nem durante as celebrações litúrgicas, mas sim em momentos especiais convocados para isso, quando cada pessoa participa se quiser.

Com relação a essas atividades, estamos colaborando para a liberdade de expressão e para que os cidadãos saibam escolher bem os seus candidatos. Não temos o costume de indicar nomes em culto, celebrações ou liturgias na Igreja, mas os cristãos leigos têm o direito de opinar em seus âmbitos e suas amizades, pois são cidadãos desse país e exercem assim sua liberdade de expressão.

Existe também uma idéia errônea por parte de alguns, que, ao celebrar a liturgia e o culto teríamos que ficar só no “âmbito da sacristia”, falando apenas do “céu” sem demonstrar que o Evangelho vem para transformar a vida da pessoa e que, como conseqüência, leva o cristão a ser presença do Cristo Ressuscitado no mundo com todas as conseqüências pessoais, familiares, comunitárias e sociais que isso implica. O divórcio entre fé e vida levou muitos a viverem um “devocionismo” desencarnado, e isso o demonstra hoje pela dificuldade das pessoas reconhecerem que todo discípulo de Jesus deveria ser também missionário, e não apenas com palavras, mas com a própria vida e testemunho.

As dificuldades são muitas e sabemos muito bem de tudo aquilo que os cristãos já sofreram pelo mundo afora, até mesmo pagando com a própria vida a sua coerência com o Evangelho. Mas não podemos nos intimidar com nenhuma ameaça e sim prosseguir adiante em nossa caminhada de, seguindo Cristo Jesus, ajudarmos, pela nossa vida, a construir um mundo de fraternidade e de paz.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Viagem do Papa à França ao vivo!


O Santuário, a gruta de Massabielle, a Basílica do Rosário e a praça das procissões, em Lourdes, terão um sistema de webcams para transmitir as imagens ao vivo pela Internet.


Como explicou Laurent Jarneau, webmaster do Santuário, a decisão de instalá-las foi tomada para atender os contínuos pedidos de pessoas que não podiam viajar a Lourdes mas que desejavam participar da peregrinação do papa.


As câmeras foram colocadas na entrada dos principais locais de peregrinação e as imagens podem ser vistas no site oficial do Santuário de Lourdes.


Desde o ano 2000, o Santuário possui câmeras de vídeo que transmitem imagens da Basílica do Rosário, da Virgem coroada e da gruta de Massabielle, mas não ao vivo.


Para assistir é só clicar no título desta postagem!

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

O "L'OSSERVATORE ROMANO" E O CONCEITO DE MORTE CEREBRAL


Um artigo publicado na edição desta quarta-feira, 3 de setembro, do jornal vaticano "L'Osservatore Romano", abriu um debate entre os cientistas italianos, a propósito dos critérios usados para estabelecer a morte de uma pessoa.


O artigo foi publicado por ocasião dos 40 anos do "Relatório de Harvard", que modificou a definição de morte, não mais baseada na parada cardiocirculatória, mas na ausência de atividade cerebral. Desde então, o órgão indicador da morte não é somente o coração, mas o cérebro.


Foi essa mudança de concepção que deu ensejo à era dos transplantes de órgãos. Em 1968, a Igreja Católica aceitou a definição, declarando-se favorável à retirada de órgãos de pacientes em estado de "morte cerebral".


Todavia, o artigo do "L'Osservatore Romano" recorda que a experiência médica, no decorrer destes anos, demonstrou que a morte cerebral não é a morte do ser humano.


"A idéia de que a pessoa deixa de existir quando o cérebro pára de funcionar considera a existência do ser humano a partir apenas do funcionamento cerebral" _ afirma o artigo.Neste caso, a "morte cerebral" entraria em contradição com o conceito de pessoa segundo a Doutrina Católica e, portanto, com as diretrizes da Igreja em relação a casos de comas profundos e prolongados.


O artigo considera a possibilidade de que este critério tenha sido definido por interesses e pela necessidade de transplantar órgãos, e não por um real avanço científico.Alguns cientistas italianos replicaram a essas afirmações, declarando que o parâmetro da morte cerebral é o único cientificamente válido. Comentando o fato, o diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, Pe. Federico Lombardi, disse que o texto publicado pelo jornal vaticano "é um interessante artigo assinado pela renomada senhora Lucetta Scaraffia, mas não pode ser considerado como uma posição do magistério da Igreja".


Pe. Lombardi recorda que se trata de "uma contribuição para a discussão e o aprofundamento", mas somente uma contribuição, ou seja, não é uma posição da Doutrina Católica ou de qualquer organismo vaticano.O diretor da Sala de Imprensa explica ainda que se trata de um artigo, e não de um editorial do "L'Osservatore Romano", pois os editoriais podem ser atribuídos somente ao diretor do jornal, neste caso, a Gian Maria Vian.


Recordamos o discurso de João Paulo II dirigido no dia 29 de agosto do ano 2000 aos participantes de um Congresso internacional da Sociedade de Transplantes. Na ocasião, o papa Wojtyla, embora recordando que "a Igreja não faz opções científicas" diante de vários parâmetros de certificação da morte, ressaltara que, todavia, "se pode afirmar" que "a cessação total e irreversível de toda atividade encefálica" como critério de certificação da morte, "se aplicado escrupulosamente, não se apresenta em contraste com os elementos essenciais de uma correta concepção antropológica".


"Conseqüentemente _ observara João Paulo II na ocasião _, o agente de saúde que tenha a responsabilidade profissional de tal certificação, pode basear-se em tal critério para alcançar, caso por caso, aquele grau de segurança no juízo ético que a doutrina moral qualifica com o termo de 'certeza moral', certeza necessária e suficiente para poder agir de maneira eticamente correta.""


Portanto, somente na presença de tal certeza _ concluíra o papa Wojtyla _ será moralmente legítimo ativar os necessários procedimentos técnicos para se chegar à extração de órgãos para transplantar, com prévio consenso informado do doador ou de seus legítimos representantes." (BF/AF)

terça-feira, 26 de agosto de 2008

PAPA ALBINO LUCIANI: UM PONTIFICADO BREVE, INTENSO E MARCANTE

O dia 26 de agosto de 1978 era um sábado. Mas não um sábado como tantos outros, e sim um dia que entraria para a história: da Igreja e do mundo. Há exatamente 30 anos, o Sacro Colégio dos Cardeais elegia como papa _ num conclave que durou apenas 26 horas _ como sucessor de Paulo VI, o patriarca de Veneza, Cardeal Albino Luciani, que adotaria o nome de João Paulo I e teria um dos pontificados mais breves da história da Igreja: apenas 33 dias. De fato, viria a falecer no dia 28 de setembro sucessivo.

O conclave teve início às 16h30 de sexta-feira, 25 de agosto, e se concluiu 26 horas depois, com a escolha do Cardeal Luciani. Foi, depois de 1939, o conclave mais rápido do século XX. Às 19h19 de 26 de agosto, se erguiam as cortinas do balcão central da basílica vaticana, e o Cardeal Pericle Felici pronunciava a fórmula latina "habemus papam".


Dois dias antes, o Cardeal Albino Luciani escrevera à sua sobrinha, Pia: "Não sei quanto tempo durará este conclave. É difícil encontrar a pessoa apropriada para enfrentar tantos problemas que são cruzes muito pesadas. Felizmente, não corro riscos..."


Mas corria... de fato, poucas horas depois, diante dos cardeais que se inclinavam em sinal de submissão, diria: "O que vocês fizeram? Que Deus os perdoe!"


Mas a escolha não o encontrou despreparado. Estava ali, a começar pelo nome _ João Paulo I: inédito _ pronto para unir, simbolicamente, os pontificados dos dois pontífices do Concílio Vaticano II _ João XXIII e Paulo VI _ numa síntese original, nascida de uma perspectiva muito pessoal.


Essa perspectiva pessoal se confirmou logo no início do pontificado: manutenção da estrutura curial, renúncia à coroação, à tiara e à sede gestatória, assim como sua solicitação para que fossem suspensas as formalidades da audiência aos cardeais com mais de 80 anos, que não haviam participado do escrutínio, e que deveriam prestar voto de obediência ao novo pontífice.


Um pontificado iniciado com tais auspícios prometia deixar uma marca indelével na história da Igreja. Uma promessa que, todavia, não teve tempo suficiente para se concretizar. Foi brutalmente detida na noite de 28 para 29 de setembro, com o seu precoce falecimento.


Mas o breve e saudoso pontificado de João Paulo I não deixou apenas o seu sorriso franco e sincero, aberto ao mundo. Assinalou o início de uma transformação. Aqueles 33 dias bastaram para que Albino Luciani inaugurasse uma imagem de pontífice liberada de entraves e formas protocolares, a começar pelo uso simples e direito do "eu", no lugar do habitual plural majestático, e prosseguindo com seus discursos improvisados, que deram ensejo a não poucas preocupações nos âmbitos curiais.


Papa João Paulo I reafirmou continuamente e com humildade, a essencialidade da mensagem evangélica, com referências contínuas à pobreza e ao correto uso da propriedade privada.


Fonte: Rádio Vaticana

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

DIÁLOGO DO PAPA COM O CLERO EM BRESSANONE - PARTE 1


Bressanone, 09 ago (RV) - A Sala de Imprensa da Santa Sé publicou o texto integral do longo diálogo do papa com o clero, quarta-feira passada, na Catedral de Bressanone. Bento XVI respondeu a 6 perguntas. Nos dias passados, apresentamos uma síntese de 4 delas. Hoje vamos focalizar as duas últimas.


A pergunta, colocada por um sacerdote franciscano, referia-se ao discurso do papa em Regensburgo, quando então ressaltava a ligação substancial entre o Espírito divino e a razão humana. Por outro lado, continuou o franciscano, o senhor sempre ressaltou a importância da arte e da beleza, da estética. Então, ao lado do diálogo conceitual sobre Deus, não deveria ser sempre reafirmada a experiência estética da fé no âmbito da Igreja, para o anúncio e a liturgia?


O papa responde, afirmando que as duas coisas devem caminhar pari passu: a razão, a honestidade da reflexão sobre a verdade e a beleza, pois uma razão que quisesse de certo modo despojar-se da beleza, seria reduzida à metade, e prosseguiu:


“Para mim, a arte e os Santos são a maior apologia da nossa fé. Os argumentos apresentados pela razão são absolutamente importantes e irrenunciáveis, mas o dissenso pode sempre permanecer de pé. Ao invés, se olhamos para os Santos, este grande facho de luz com o qual Deus atravessou a história, vemos que aí realmente existe uma força do bem que resiste aos milênios, aí existe verdadeiramente a luz da luz. E, do mesmo modo, se contemplamos as belezas criadas pela fé, diria que estas são simplesmente a prova viva da fé. Uma bela catedral é um anúncio vivo, que nos fala; e partindo da beleza da catedral, conseguimos anunciar visualmente Deus, Cristo e todos os seus mistérios”.

Onde nasce a beleza – acrescentou o papa – nasce a verdade:

“Quando, nesta nossa época, discutimos sobre a racionalidade da fé, discutimos precisamente do fato que a razão não acaba onde acabam as descobertas experimentais, ela não acaba no positivismo; a teoria da evolução vê a verdade, mas vê somente a metade da verdade: não vê que por trás está o Espírito da criação. Nós estamos lutando pelo alargamento da razão e portanto por uma razão que seja aberta também ao belo… Penso que isto é, de certo modo, a prova da verdade do cristianismo: coração e razão se encontram, beleza e verdade se tocam. E quanto mais nós mesmos conseguimos viver na beleza da verdade, tanto mais a fé poderá voltar a ser criativa também no nosso tempo”.


Um pároco faz uma pergunta ao papa sobre a diminuição dos padres e sobre a possibilidade de confiar aos leigos algumas funções do sacerdote. Vejamos a resposta do papa:


“Na minha resposta gostaria de considerar dois aspectos fundamentais. De um lado, o caráter insubstituível do sacerdote, o significado e o modo do ministério sacerdotal hoje; do outro lado – e isto hoje se destaca mais do que antes – a multiplicidade dos carismas e o fato que todos juntos são Igreja, edificam a Igreja e por isto devemos nos empenhar por despertar os carismas, que sustentam também o sacerdote. O sacerdote sustenta os outros e os outros o sustentam, e somente neste conjunto complexo e variegado a Igreja pode crescer hoje e para o futuro”.


O papa fala das dificuldades dos sacerdotes, hoje, sobrecarregados de tantas coisas a fazer. E indica uma prioridade:


“Uma prioridade fundamental da existência sacerdotal é estar com o Senhor e ter tempo para a oração. São Carlos Borromeo dizia sempre: “Não poderás cuidar da alma dos outros, se deixas que a tua desapareça. Afinal de contas, não farás mais nada nem mesmo para os outros. Deves ter tempo também para estar com Deus”… E a partir daí, ordenar depois as prioridades: devo aprender a ver o que é realmente essencial, onde é absolutamente exigida a minha presença de sacerdote e não posso delegar ninguém. Ao mesmo tempo, devo aceitar humildemente quando, muitas coisas que teria a fazer e onde seria exigida a minha presença, não posso realizar porque reconheço os meus limites. Penso que as pessoas compreenderão essa humildade”.


Bento XVI volta a destacar o valor do celibato, sinal de que o sacerdote pertence totalmente a Deus e aos outros, e termina com uma oração diante de tantas canseiras do padre:


“Rezemos ao Senhor que nos console sempre quando pensamos que não agüentamos mais; sustentemo-nos uns aos outros e então o Senhor nos ajudará a encontrar juntos as estradas justas”.