quarta-feira, 30 de maio de 2012

Quando é que uma pessoa deve pedir ajuda psicológica no campo afetivo? dependência afetiva é uma doença?


Um conversa com Dra. Michela Pensavalli, Psicóloga-Psicoterapeuta

Um congresso sobre o tema do amor, em uma época líquida em que as relações são rápidas, frenéticas e virtuais dificilmente fazemos uma pausa para compreender as nossas emoções e os nossos sentimentos.

Entrevista com Dra. Michela Pensavalli, Psicóloga-Psicoterapeuta, Professora e Coordenadora Acadêmica SCint (Escola de Especialização em Psicoterapia Cognitivo – Interpessoal), membro da CeDic (Centro para a pesquisa e a terapia do Dep. Comportamental), Investigadora junto à ITCI (Instituto de Terapia Cognitivo – Interpessoal) e Membro do Comitê editorial da revista Modelli per la Mente e Idee in Psicoterapia.

Publicamos a seguir a entrevista:

Por que um congresso sobre o tema do amor e da afetividade?

Dra. Michela Pensavalli: Em uma época em que as relações são rápidas, frenéticas e virtuais dificilmente fazemos uma pausa para compreender as nossas emoções e os nossos sentimentos. O congresso aborda a temática do amor em tempos de liquidez mediática, explicando como funcionam os mecanismos desta nova realidade, oferecendo pontos de reflexão para entender como o Amor mudou desde a introdução da Internet, do ponto de vista comunicativo, comportamental e social.

Hoje, as pessoas buscam muito estes temas, também porque sofrem muito por isso. Onde encontrar ajuda, já que no campo psicológico há muitas escolas diferentes, e talvez algumas que realmente não ajudam a encontrar uma solução adequada?

Dra. Michela Pensavalli: Até à data as psicoterapias com mais crédito parecem ser aquelas cognitivistas. A Psicoterapia Cognitiva Interpessoal, em particular, representa uma abordagem integrada em quanto que aborda a exigência clínica de tratar os pacientes com problemas relacionais. A condução do processo de psicoterapia, envolve a construção de uma atmosfera de cooperação com o paciente, onde ele é visto como o maior especialista de si mesmo e dos seus males, enquanto que o terapeuta é o principal especialista das estratégias e das técnicas para resolvê-las. Terapeuta e paciente constroem o cenário de exploração e conhecimento das dinâmicas profundas que vão sendo expressas no contexto da relação terapêutica.

Na sua opinião, quando é que uma pessoa deve pedir ajuda psicológica no campo afetivo?

Dra. Michela Pensavalli: Quando se busca contínua e incessantemente a felicidade, uma realização de si mesmo, uma paz interior através de uma relação com um objeto ou com um evento ou com uma pessoa e esta busca entra na cotidianidade no âmbito sentimental, profissional e relacional, então pode ser útil confiar num tratamento psicoterapêutico. Por meio desta ajuda, a pessoa experimenta novas atitudes e retoma, passo a passo, o domínio da própria vida e a direção escolhida para ser perseguida nos vários âmbitos da vida cotidiana.

O que é a dependência afetiva? é uma doença? É algo normal hoje?

Dra. Michela Pensavalli: Define-se “doença das emoções”. O objeto da dependência é um relacionamento. Designa uma necessidade geral e excessiva de ser acudidos, necessidade que leva a um comportamento submisso e a uma angústia de separação. É a antítese do amor a si mesmos. O dependente afetivo não consegue desenvolver o amor próprio nem a auto-estima.

Na sociedade atual, onde é dada uma grande importância à estética e à beleza externa, o dependente afetivo vive constantemente no medo de não ser aceito e aceita fazer qualquer coisa para mostrar-se complacente como o outro ainda que este seja contrário aos seus valores e ao seu código moral.

As pessoas sentem medo de ficar na solidão, mas ao mesmo tempo não têm a coragem de tomar a sério uma relação porque é muito difícil. É realmente assim? Por quê?

Dra. Michela Pensavalli: Solidão significa entrar em contato consigo mesmos e com a própria alma, significa, às vezes, terror de viver na dor do abandono. As pessoas têm medo da solidão, porque naquele momento encontram-se diante de si mesmas. Ao mesmo tempo, no entanto, têm medo de estreitar laços fortes porque não se sentem capazes de mantê-los e gerenciá-los no tempo. A psicoterapia pós-moderna encaminha-se na direção de sustentar a pessoa enquanto busca o equilíbrio entre os excessos de extrema solidão e busca complacente e contínua do outro.

Michela, junto com Tonino Cantelmi, você escreveu um livro sobre o assunto: “Scusa se non ti chiamo piu amore”. Qual é a mensagem que você daria para os jovens de hoje que se deparam com a escolha de se casar ou não casar, que se encontram diante das dificuldades psicológicas de seus parceiros?

Dra. Michela Pensavalli: Uma justa premissa que deve ser sublinhada é saber que o amor pode transformar-se numa dependência afetiva mas a dependência não se transforma jamais em amor. Isso explica porque em muitos casos uma relação amorosa transformada em uma história de dependência recíproca pode ser curada por meio do compromisso ativo dos parceiros, enquanto que uma relação que se destacou  como dependência desde o início está destinada a acabar de um modo ou de outro, quando não termina destruindo as pessoas envolvidas.

No entanto, investir no amor é sempre a direção certa e a solução. Isto quando o amor é saudável e não vinculativo, quando se vive de forma independente e recíproca sem excluir o amor para si mesmos. A união no matrimônio não significa dependência afetiva, mas o oposto. Uma sadia relação baseia-se na liberdade e na autonomia, na pura necessidade de ser amados. Num matrimônio cada um manifesta o seu amor ao seu modo, e cada um ama o outro como acha melhor: isso é o amor humano. Amar significa aceitar o desafio de suportar e acolher sobretudo os defeitos do outro.

Argentina - Resistência pró-vida evita aplicação da despenalização do aborto por estupro em todo o território argentino


Buenos Aires, 30 Mai. 12 / 08:54 am (ACI)

A ação dos pró-vidas argentinos e da Igreja obteve que a sentença que despenaliza o aborto por estupro não seja aplicada em toda a Argentina, informou um jornal local.

Em sua edição de 29 de maio, o Jornal Clarín indicou que depois da sentença da Corte Suprema de Justiça da Nação que declarou não puníveis os abortos no caso de estupro, "só algumas províncias se alinharam".

Clarín disse que na falta de uma diretriz nacional, os bispos estão tentando que nas províncias que não têm um protocolo "não se aplique a sentença ou, pelo menos, haja mais exigências" para impedir assim falsas alegações de estupro ou abortos em um estado avançado da gestação.

O jornal indicou que o Arcebispo de Tucumã, Dom Alfredo Zecca, transmitiu aos dirigentes e legisladores que a Igreja não aceitará que o aborto seja aprovado. "Nas províncias de Cuyo, os arcebispos de Mendoza e San Juan, Dom José María Arancibia e Dom Alfonso Delgado, e os bispos de San Luis e San Rafael, Dom Pedro Martínez e Dom Eduardo Taussig, emitiram um comunicado no qual afirmam: ‘Uma mulher que foi estuprada merece compreensão e acompanhamento, mas sua ferida não é curada com uma injustiça maior como o aborto’", informou Clarín.

O jornal argentino indicou que isto mostra que a Igreja "vem desdobrando uma forte ofensiva nas províncias que não elaboraram protocolos" e assim buscam impedir a realização de abortos.

domingo, 27 de maio de 2012

Patronos e intercessores da JMJ RIO2013

Sob o manto da padroeira do Brasil, com o coração jovem, em missão e cheio de paz. Assim está a JMJ Rio2013 com a proteção de seus patronos. São eles:

Nossa Senhora da Conceição Aparecida;


São Sebastião;


Santo Antônio de Santana Galvão;


Santa Teresa de Lisieux


Beato João Paulo II.


O lançamento aconteceu na tarde de hoje, 27 de maio, no Santuário da Penha. Ao todo são cinco patronos e 13 intercessores.

Entenda melhor a diferença entre os dois e conheça as invocações de cada um:

Patronos - pais espirituais dos jovens

Os patronos são os pais espirituais dos jovens, lhe ensinam, como verdadeiros pais e mestres, os caminhos para santidade. Foram escolhidos por estarem intimamente ligados ao espírito da JMJ Rio 2013. Dentre estes estão também representantes da nação. O tema missionário inspira o pedido por proteção e entusiasmo para enfrentar os desafios da evangelização nos dias atuais. Oração e ação são dimensões inseparáveis dos discípulos-missionários de Jesus Cristo.

Nossa Senhora da Conceição Aparecida, protetora da Igreja e das famílias!

São Sebastião, Soldado e mártir da fé!

Santo Antônio de Santana Galvão, arauto da paz e da caridade!

Santa Teresa de Lisieux, padroeira das missões!

Beato João Paulo II, amigo dos jovens!

Intercessores - um modelo a ser imitado

Os jovens desejam encontrar-se com a verdade que dê sentido a sua existência. Dentre os intercessores escolhidos para a JMJ Rio 2013 estão homens e mulheres que mesmo na juventude souberam escolher a melhor parte em suas vidas: Jesus Cristo. A história de suas vidas inspira-nos a cultivar suas virtudes. O número 13 poderia apontar para o ano da Jornada, mas, além disso, atesta para todos que a santidade na vida concreta é possível. A geração JMJ é convidada a entregar sua vida àquele que concede felicidade e liberdade em abundância.

Santa Rosa de Lima, fiel à vontade de Deus!

Santa Teresa de Los Andes, contemplativa de Cristo!

Santa Laura Vicuña, mártir da pureza!

Beato José de Anchieta, apóstolo do Brasil!

Beata Albertina Berkenbrock, virtuosa nos valores evangélicos!

Beata Chiara Luce Badano, toda entregue a Jesus!

Beata Irmã Dulce, embaixadora da Caridade!

Beato Adílio Daronch, amigo de Cristo!

Beato Pier Giogio Frassati, amor ardente aos pobres e a Igreja!

Beato Isidoro Bakanja, mártir do escapulário!

Beato Ozanam, servidor dos mais pobres!

São Jorge, combatente do Mal!

Santos André Kim e companheiros, mártires da evangelização!

Como receber o Espírito Santo?


O Santo Pentecostes é celebrado no quinquagésimo dia da Páscoa. Para os judeus, era a festa do dom da Lei de Moisés: cinquenta dias após a saída de Israel do Egito, o povo chegou ao pé do Sinai e, aí, recebeu a Lei e, pelo pacto da Aliança, tornou-se para sempre o povo de Deus. É também a festa das primícias: na Terra Santa, o Pentecostes era comemorado no tempo da colheita da cevada. Levavam-se, então, os primeiros frutos da terra para o Templo de Deus.

Foi no dia de hoje, no Pentecostes dos judeus, quando os apóstolos estavam reunidos em Jerusalém, que o Senhor Jesus, que já tinha soprado Seu Espírito sobre os Doze (representando a Igreja toda), agora efundiu de modo portentoso, como no Sinai (vento, fogo, tremor de terra), o Espírito Santo, marcando o início da missão da Igreja de anunciar e testemunhar o Ressuscitado até os confins da Terra.

O Espírito é a própria vida que agora preenche e sustenta Jesus Ressuscitado, de modo que receber o Espírito é receber a própria vida de Jesus, Sua energia e potência de ressurreição. Para compreender numa linguagem de hoje: o Espírito é um "vírus", o "vírus" de Cristo morto e ressuscitado. O que esse "vírus bendito" faz? “Cristifica-nos”, isto é, vai nos impregnando da vida, dos sentimentos e atitudes de Cristo Jesus.

É um processo que chega ao máximo após a morte: esse Espírito virótico nos transfigura totalmente, corpo e alma, segundo o Cristo na Sua morte e ressurreição: a alma logo após a morte; o corpo, no final dos tempos, juntamente com toda a humanidade, toda a criação e toda a história. 


Mas como se recebe este Espírito? Como entrar naquela experiência que os apóstolos tiveram quando Jesus soprou sobre eles e lhes deu o Espírito de paz e perdão dos pecados? A resposta é: pelos sacramentos da Igreja. Eles são os gestos de Cristo Ressuscitado, que até a consumação dos séculos agirá na Sua Comunidade e em cada discípulo Seu. Em cada sacramento, invariavelmente, o Pai derrama o Espírito do Filho para transfigurar o cristão em Cristo, de modo que, inserido no Seu Corpo glorioso, isto é, na Igreja, tenha acesso ao Pai.
Vejamos: no Batismo, o Espírito é dado na água, como vida nova em Cristo ("Todo aquele que está em Cristo é uma nova criatura"); na Crisma, é dado no óleo, como força para edificar a Igreja e testemunhar diante do mundo que Jesus é Senhor ("Não recebestes um espírito de temor, mas o Espírito de força..."); na Eucaristia, Ele impregna o pão e o vinho, até transformá-los no Corpo e no Sangue do Senhor, pleno de Espírito de vida eterna ("Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna. É o Espírito quem dá vida..."); no Matrimônio, é dado como Espírito de amor que une o Cristo e a Igreja como Esposo e Esposa numa nova e eterna Aliança, fazendo com que marido e mulher vivam o amor como sacramento da aliança esponsal entre Cristo e Sua Igreja católica ("Maridos, amai vossas esposas como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela...").

Na Ordem, os Bispos, sacerdotes e diáconos recebem o Espírito pela imposição das mãos, para serem presença do Cristo cabeça, mestre e sacerdote do rebanho ("O Espírito do Senhor repousa sobre mim porque o Senhor me ungiu...); na Penitência, o Espírito é dado pela imposição das mãos para o perdão dos pecados ("Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, eles serão perdoados"); na Unção dos Enfermos, o Espírito é dado como alívio e cura interior, para que o cristão que padece possa unir-se à cruz do Senhor ("Completo na minha carne o que faltou à paixão de Cristo...)".

Pois bem, durante toda a nossa existência, o Espírito do Senhor vai dando testemunho de Jesus no mais íntimo de nós e nos vai transfigurando no Cristo. Sejamos dóceis à ação d'Ele. Se o Espírito é um "vírus bom", o pecado é uma vacina ruim, que impede o vírus de agir e o deixa incubado em nós, sem produzir seus frutos... Por isso, São Paulo nos convida a viver não segundo a carne (= pecado), mas segundo o Espírito que habita em nós.

Sejamos gratos ao Senhor que nos cumulou com o Seu Espírito e sejamos dóceis à Sua ação em nós.

Dom Henrique Soares da Costa - Bispo Auxiliar de Aracaju

sábado, 26 de maio de 2012

SOLENIDADE DE PENTECOSTES

(Ano B – 27 de maio de 2012)


I Leitura: At 2,1-11
Salmo Responsorial: Sl 103 (104),1ab.24ac.29bc-30.31.34 (R/.30)
II Leitura: 1Cor 12,3b-7.12-13
Evangelho: Jo 20,19-23

Queridos irmãos

Hoje, o Espírito Santo é derramado sobre a Igreja; hoje, se cumpre a promessa de Cristo Jesus, feita momentos antes da sua ascensão aos céus: “mas descerá sobre vós o Espírito Santo e vos dará força; e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria e até os confins do mundo” (At 1,8), tal como refletimos na liturgia do domingo passado. A celebração de hoje encerra dignamente as festividades pascais, pois, completados cinquenta dias (daí o termo grego pentecostes), teologicamente, a Igreja adentra na plenitude dos mistérios pascais, ao tempo em que lhe é concedida um conhecimento experiencial da terceira Pessoa trinitária, até então, oculta sob o ‘véu de mistério’: o Espírito Santo.

Desde o seu princípio, a Sagrada Escritura faz referência ao Espírito de Deus (“No princípio, Deus criou os céus e a terra. A terra estava informe e vazia; as trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas” – Gn 1,1-2). E, percorrendo todos os livros nos quais estão contidos a Palavra de Deus, percebemos muitas alusões a este “grande desconhecido”. Desconhecido porque, tal como o Filho, a forma pela qual Deus era concebido era apenas como único e, logicamente, não havia a distinção das Pessoas Trinitárias. No entanto, este Espírito de Deus assumia muitas figuras trazidas principalmente pelo Antigo Testamento, mas que também se faz presente no Novo: água, tal como nos apresentam tantas passagens, mas, para citarmos como exemplo, utilizamos a Segunda Leitura de hoje: “De fato, todos nós, judeus ou gregos, escravos ou livres, fomos batizados num único Espírito, para formarmos um único corpo, e todos nós bebemos de um único Espírito” (1Cor 12, 13); unção; fogo; nuvem e luz; selo; mão e dedo de Deus; pomba.

Quem é e qual a missão do Espírito Santo? O Espírito Santo é, como já aludimos anteriormente, uma Pessoa Divina que revela, juntamente com o Filho, Deus, fazendo-nos conhecer também Cristo, Verbo de Deus. Nunca o Espírito Santo revela-se a si mesmo, pois é Ele quem nos faz ouvir a Palavra do Pai, o próprio Jesus Cristo, abrindo os nossos ouvidos da fé, o nosso coração, fazendo-nos acolher Deus pela fé. Conhecemos o Espírito Santo pela vida da Igreja. Aí é o lugar de nosso conhecimento através das Escrituras inspiradas pelo mesmo Espírito de Deus; pela Tradição proveniente dos Apóstolos; pelos ensinamentos desta mesma e única Igreja de Cristo; por meio da Liturgia, pela qual nos dirigimos ao Pai, pelo Filho, na moção do Espírito Santo; na oração, já que o Espírito intercede por nós: “o Espírito vem em auxílio à nossa fraqueza; porque não sabemos o que devemos pedir, nem orar como convém, mas o Espírito mesmo intercede por nós com gemidos inefáveis” (Rm 8,26); nos sinais de vida apostólica e missionária realizada pela Igreja através das nossas diversas labutas diárias; no testemunho de tantos homens e mulheres, conhecidos ou não, pelos quais Ele manifesta a Sua santidade e continua a obra da salvação. Logo, percebemos que o Espírito Santo já não nos é desconhecido, mas um Ser Divino que sempre opera em nós – se lhe estamos abertos –, principalmente pela Igreja. Em suma, a missão do Divino Espírito Santo é a de fazer com que os fiéis estejam cada vez mais unidos a Cristo, inserindo-os, constantemente no amor trinitário que é Ele mesmo; o Espírito Santo é a relação entre o Pai e o Filho: é o amor entre eles que, de tão profundo, é essencialmente Pessoa Divina (não um sentimento com caracteres humanos, tal como conhecemos a atitude de amar). Por isso, já remetendo-nos à Liturgia deste Domingo, temos nas antífonas de entrada propostas para esta celebração a dimensão de união que somente o Espírito Santo pode oferecer, tanto à vida intratrinitária, quanto às criaturas: “O Espírito do Senhor encheu o universo; ele mantém unidas todas as coisas e conhece todas as línguas, aleluia!” (Sb 1,7); “O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo seu Espírito que habita em nós, aleluia!” (Rm 5,5; 10,11).

No Evangelho de hoje, percebemos a íntima ligação existente entre o evento Pentecostes e o da Páscoa: “Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou e, pondo-se no meio deles, disse: ‘A paz esteja convosco’” (Jo 20,19). Ao esclarecer acerca da temporalidade desta passagem, São João quer nos indicar que aquele dia era o da Ressurreição de Jesus. Mais adiante: “Novamente, Jesus disse: ‘A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, também eu vos envio’. E depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: ‘Recebei o Espírito Santo’” (v. 21-22a). Jesus, ao colocar-se no meio dos discípulos, ao tempo em que faz esta bela saudação, quer manifestar que ele mesmo, o Ressuscitado, é a paz que, pelo Espírito se encontra no coração da Igreja, dos fiéis. Neste trecho percebemos a economia, a manifestação no tempo da Trindade Santíssima e eterna. Pois, Jesus Cristo, enviado do Pai, envia os discípulos, a Igreja, enviando-lhes o Espírito Santo que procede do Pai e do Filho, por isso dizer: ‘Recebei o Espírito Santo’. A partir deste envio do Santo Espírito é que a Igreja está apta para iniciar sua missão sob a suave condução do vento do Espírito. Mas para que a Igreja é enviada? Respondemos esta nossa interrogação com as palavras mesmas de São João: “A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem não os perdoardes, eles lhes serão retidos” (v. 23). Logo, vemos que a Igreja, de per si, não salva, mas é a única depositária da salvação, visto que Jesus, na cruz, derramou o seu sangue para a remissão dos pecados, e é a Igreja quem ‘herda’ de Cristo, seu Esposo, esta missão, e é pela potência do Santo Espírito de Deus que ela realiza tal proeza. A missão da Igreja continua a missão de Jesus. Confirma-nos esta ideia São João Crisóstomo: “Assim, elevou o espírito de seus discípulos pelos fatos e pela dignidade de sua missão. E não pede, todavia, o poder do Pai, mas que de sua própria autoridade se lhes dá. Por isso segue: ‘E havendo dito isto, soprou e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo’” (In Ioannem, hom. 85).

Na Primeira Leitura, temos a narração do Pentecostes e a sua consequência na vida da Igreja nascente. Assim, pedagogicamente, dividimo-la em dois trechos: o primeiro (At 2,1-4), trata da descrição do derramamento do Espírito Santo. É a parte que nos deteremos por hora. A festa de Pentecostes, antes mesmo de fazer parte do calendário cristão, tal como a conhecemos, participava do almanaque do povo judeu: era a também chamada “festa das semanas”. Esta festividade judaica era celebrada exatamente sete semanas após a páscoa do povo de Israel. O seu intuito era o de agradecer ao Senhor pelas colheitas, bem como pela Lei dada pelo Senhor a Moisés no monte Sinai, cinquenta dias depois da libertação do Egito. Por dedução, temos: se Jesus foi crucificado na véspera da páscoa dos judeus e ressuscitou um dia após, então cinquenta dias depois da morte e ressurreição do Senhor seria a festa das semanas, o pentecostes judeu. Então, primeiramente, quando São Lucas trata de “Quando chegou o dia de Pentecostes” (v. 1), ele refere-se à festa das semanas e não à ideia posterior que a Igreja terá. Mencionando o lugar, o autor dos Atos dos Apóstolos vai frisar: “os discípulos estavam reunidos no mesmo lugar”. Que lugar seria este? O mesmo em que Jesus se reuniu com os seus discípulos para cear na véspera de sua Paixão; o mesmo em que ele apareceu algumas vezes após a sua ressurreição (inclusive no episódio do Evangelho de hoje); ou seja, o cenáculo. Em uma de suas homilias, o Papa Bento XVI assevera-nos: “Este ‘lugar’ é o Cenáculo, […] a sala que se tinha tornado, por assim dizer, a ‘sede’ da Igreja nascente (cf. At 1,13). Todavia, mais do que insistir sobre o lugar físico, os Atos dos Apóstolos tencionam acentuar a atitude interior dos discípulos: ‘Todos, unidos pelo mesmo sentimento, se entregavam assiduamente à oração’ (At 1,14). Por conseguinte, a concórdia dos discípulos é a condição para que venha o Espírito Santo; e a condição prévia da concórdia é a oração” (Homilia de 31 de maio de 2009). O Papa, ao fazer tal ponderação, nos leva a questionar acerca da nossa vivência de comunidade, sendo, portanto “um só coração e uma só alma” (At 4,32). Como estamos sentindo o Espírito Santo se tantas vezes promovemos discórdias e malquerenças na comunidade cristã por meio de nossas atitudes mesquinhas, enojadas, asquerosas? E a oração que fazemos é promotora da concórdia no seio dos meus irmãos ou, na atitude de orar, esterilizamos o Espírito Santo? Fica-nos este incômodo. Depois, ainda na primeira parte da nossa divisão pedagógica do texto da Primeira Leitura, temos: “Então, apareceram línguas como de fogo que se repartiam e pousaram sobre cada um deles. E todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito os inspirava” (v. 3-4). Esta imagem remete-nos à manifestação de Deus no Sinai entre trovões, relâmpagos e fogo, tal como a festa das semanas de que falávamos anteriormente recordava. Se lá, na teofania do Sinai, o povo da Antiga Aliança não poderia chegar perto daquele fenômeno divino, no Pentecostes ‘cristão’, a teofania vem à Igreja em forma de línguas de fogo e repousa sobre a cabeça dos que aí estavam; se lá o povo temeu Deus, aqui, na narração dos Atos dos Apóstolos, os fiéis criam coragem, tornam-se ainda mais próximos de Deus porque recebem a sua força, e, a partir daí, anunciam intemerariamente, pois o Paráclito, isto é, o Divino Advogado está com eles. Agora, no segundo trecho desta perícope, vemos a consequência desta efusão do Espírito: eles falam em outras línguas, conforme a inspiração do Espírito Divino. Assim, todos os que estavam em Jerusalém, dentre os quais os estrangeiros, entendiam em língua materna o que lhes era anunciando: as maravilhas de Deus que, desde a tenra idade da Igreja era fielmente por ela proclamada. Neste sentido, a Oração de Coleta leva-nos a dizer: “Ó Deus que, pelo mistério da festa de hoje, santificais a vossa Igreja inteira, em todos os povos e nações, derramai por toda a extensão do mundo os dons do Espírito Santo, e realizai agora no coração dos fiéis as maravilhas que operastes no início da pregação do Evangelho”. Mas que maravilhas são essas? Primeiramente, levar os homens ao conhecimento do verdadeiro Deus; segundo, a reunião de todos os homens em uma fé. Essas maravilhas, por sua vez, provenientes do Doce Espírito do Senhor, vivificam, renovam a face da terra, porque o “Espírito dá vida” (2Cor 3,6).


Que constantemente invoquemos o Espírito Santo, pedindo-lhe os seus dons, para que, trilhando nas sendas do mundo, possamos, irradiados por sua luz, proclamar as maravilhas do Senhor até sermos inseridos, um dia, quando da glória da eternidade, à intimidade de Deus, de cuja antecipação o Espírito Santo já nos proporciona em vida através da comunhão com o Corpo Místico do Cristo, a Igreja. 

Por Seminarista Everson Fontes

CATÓLICOS E EVANGÉLICOS PARTICIPAM DO CULTO ECUMÊNICO 2012

Em sintonia com a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, aconteceu na noite do dia 25 de maio, no auditório do Colégio Arquidiocesano Sagrado Coração de Jesus, o Culto Ecumênico 2012.

O culto começou com o canto inicial e as palavras de acolhida, as quais foram proferidas por Dom José Palmeira Lessa, Arcebispo Metropolitano de Aracaju, que afirmou ser motivo de grande alegria reunir uma vez no ano cristãos de várias denominações. Depois foi formada a mesa que, sob a presidência de Dom Lessa, contou com a participação de Dom Mário Rino Sivieri (Bispo de Propriá), Pe. Jânison de Sá (Reitor do Seminário Maior), Pe. Manoel Barbosa (Paróquia São José), Pe. Isaías, Pe. Francisco (Comunidade Canção Nova), Pr. Edval, Pr. Ivanaldo, Pr. Jonas e o Sr. Jerônimo (coordenador do CONAL), A assembleia, que lotou o auditório, foi composta por sacerdotes, seminaristas, membros das diversas pastorais católicas e evangélicos. O lema escolhido para este ano foi: Todos seremos transformados pela vitória de Nosso Senhor Jesus Cristo (cf. 1Cor 15, 51-58). A animação ficou por canta da Comunidade Católica Shalom e do Ministério Castelo Forte, da Igreja Batista.

Seguindo os ritos de uma Celebração da Palavra do Senhor, o evento contou com saudação inicial, rito penitencial, leituras bíblicas, homilia, oração dos fiéis, ofertório, Pai-Nosso e Credo (ambos na versão ecumênica) e oração de envio.

A homilia foi proferida Dom Mário, que ressaltou em suas palavras que somos convidados a superar a morte e abraçarmos a cruz, pois a morte é a condição para alcançarmos a ressurreição e a vitória. Ele ainda lembrou que Cristo, quando ensinou uma oração aos seus discípulos, o Pai Nosso, disse que todos nós somos verdadeiros irmãos. Ao concluir, ele destacou que a grande verdade, a caridade, é esquecida, que matamos pela verdade e esquecemos que a verdade e Deus que é amor.

No final Dom Lessa agradeceu a todos que colaboraram para a realização do evento que procura unir católicos e evangélicos através da oração e do diálogo. 

 Sem. André Alves 
 andre-amareservir@hotmail.com

IMAGENS DO CULTO ECUMÊNICO















quinta-feira, 24 de maio de 2012

O Oitavo Mandamento – Não levantar falso testemunho


Aprenda a viver na verdade


O Oitavo Mandamento prescreve o seguinte: Não levantar falso testemunho (cf. Ex 20,16), ou seja, proíbe-nos falsear a verdade nas relações com os outros. Essa prescrição moral decorre da vocação do povo santo a ser testemunho de seu Deus, que é e quer a verdade. As ofensas à verdade exprimem, por palavras ou atos, uma recusa de abraçar a retidão moral: são infidelidades fundamentais a Deus, e neste sentido, minam as bases da Aliança com Ele.

Ele exige de nós a verdade. Mentir significa falar ou agir consciente e voluntariamente contra a verdade. Quem mente se engana a si mesmo e ilude os outros, os quais têm o direito a conhecer a verdade integral de um fato. Desta forma, toda a pessoa é chamada à sinceridade e à veracidade no agir e no falar. Cada um tem o dever de procurar a verdade e de aderir a ela, organizando toda a sua vida segundo as exigências dessa virtude.

Viver no respeito pela verdade não significa apenas ser fiel a si mesmo. Ser verdadeiro significa ser fiel a Deus, pois, em Jesus Cristo, a verdade de Deus manifestou-se na sua totalidade: Ele é a Verdade. Seguir Jesus é viver do «Espírito de verdade» (cf. Jo 14,17) e evitar a duplicidade, a simulação e a hipocrisia. O cristão deve testemunhar a verdade evangélica em todos os campos da atividade pública e privada, mesmo com o sacrifício da própria vida, se necessário. O martírio é o supremo testemunho dado em favor da verdade da fé. 


O Oitavo Mandamento proíbe: O falso testemunho, o perjúrio e a mentira, cuja gravidade se mede pela natureza da verdade que estes deformam, das circunstâncias, das intenções do mentiroso e dos danos causados às vítimas. Proíbe também: O juízo temerário, a maledicência, a difamação, a calúnia, que lesam ou destroem a boa reputação e a honra a que a pessoa tem direito. Ele condena também: a lisonja, a adulação ou complacência, sobretudo se finalizadas à realização de pecados graves ou à obtenção de vantagens ilícitas. Uma culpa contra a verdade exige a reparação, quando se ocasionou dano a outrem.

Este mandamento requer o respeito da verdade, acompanhado pela discrição da caridade: na comunicação e na informação, que devem assegurar o bem pessoal e comum, a defesa da vida particular e o perigo de escândalo; na reserva dos segredos profissionais, que se devem sempre manter, salvo em casos excepcionais, por motivos graves e proporcionados. Exige-se também o respeito pelas confidências feitas sob o sigilo do segredo.

Dessa forma, ser verdadeiro significa agir seriamente e falar honestamente. Quem é a favor da verdade se protege da ambiguidade, do fingimento, da ilusão e da dissimulação. A pior forma de mentira é o juramento falso.

Quando se fala em não levantar falso testemunho, a Doutrina da Igreja chama a atenção para os meios de comunicação em massa, hoje com o advento destes meios, este pecado é cada vez mais comum, por isso, a informação mediática deve estar a serviço do bem comum, ser sempre verdadeira no conteúdo e, salva a justiça e a caridade, deve ser também íntegra. Além disso deve expressar-se de modo honesto e conveniente, respeitando escrupulosamente as leis morais, os direitos legítimos e a dignidade da pessoa.

O Magistério da Igreja aponta alguns perigos existentes nos meios de comunicação, uma vez que, muitas pessoas, especialmente as crianças, consideram real o que veem na mídia. Quando no contexto da diversão, a violência é glorificada, o comportamento antissocial e a sexualidade humana são banalizadas, pecam tanto os responsáveis pela mídia, como as instâncias de controle, que deveriam rejeitar os produtores sem qualidade ética.

Por fim, o Catecismo da Igreja Católica nos ensina que a verdade é bela por si mesma. Ela comporta o esplendor da beleza espiritual. E existem numerosas formas de expressão da verdade, em especial as obras artísticas. São o fruto do talento dado por Deus e do esforço do homem, destacando a arte sacra, que, para ser verdadeira e bela, deve evocar e glorificar o Mistério de Deus, revelado em Cristo e conduzir à adoração e ao amor de Deus Criador e Salvador, Beleza excelsa de Verdade e de Amor.

Portanto, o homem é chamado a buscar e viver a verdade no agir e no falar, fugindo da duplicidade, da simulação e da hipocrisia, não se envergonhando de dar testemunho de Nosso Senhor, que é a Verdade plena, mesmo que, por amor à verdade, este alcance o martírio.



Dois eventos mundiais defendem valor da família


Acontecerá em Madri (Espanha) o "6º Congresso Mundial das Famílias", entre 25 e 27 de maio, e em Milão (Itália) o “7º Encontro Mundial das Famílias”, entre 30 de maio e 3 de junho. Dois eventos de capital importância para a defesa da família natural, como Deus a instituiu, e hoje ameaçada, como dizia João Paulo II.

O Encontro na Itália será precedido por um Congresso Teológico-Pastoral, é católico e terá a presença do Papa Bento XVI;  o Congresso na Espanha terá um conteúdo científico e prático.

Novamente acontece o Encontro do Papa com as famílias em Milão, iniciativa começada pelo Papa Beato João Paulo II, de feliz memória. Nesses Encontros o Papa tem firmado com segurança os valores fundamentais da família diante das ameaças que hoje pairam sobre a família.


Na Carta às Famílias, de 1994, João Paulo II disse que:

"Nos nossos dias, infelizmente, vários programas sustentados por meios muito poderosos parecem apostados na desagregação da família. Às vezes até parece que se procure, de todas as formas possíveis, apresentar como "regulares" e atraentes, conferindo-lhes externas aparências de fascínio, situações que, de fato, são "irregulares".” (CF, 5)

"No contexto da civilização do desfrutamento, a mulher pode tornar-se para o homem um objeto, o filho um obstáculo para os pais, a família uma instituição embaraçante para a liberdade dos membros que a compõem”. (CF, 13)

O Congresso Teológico Pastoral da Família, realizado em 1997 no Rio de Janeiro, com a presença de João Paulo II, disse em seu documento conclusivo "Carta do Rio de Janeiro":

"A família está sob a mira de ataque em muitas nações. Uma ideologia anti-família tem sido promovida por organizações e indivíduos que, muitas vezes, não obedecem princípios democráticos" . (1.1)

"Temos testemunhado uma guerra contra a família, em nível tanto nacional quanto internacional. Nesta década, em Conferências das Nações Unidas, têm sido vistas tentativas para "desconstruir" a família, de forma que o sentido de "casamento", "família" e "maternidade" é agora contestado”(1.2).

O Vaticano estima que na Missa que o Papa Bento XVI celebrará na conclusão do Encontro, em Milão, haverá cerca de um milhão de pessoas. 

Estarão presentes o anfitrião do Encontro, o cardeal arcebispo, Angelo Scola; o presidente do Pontifício Conselho para as Famílias; e o Prof. Pierpaolo Donati, autor do livro "Famiglie risorsa della società" (Famílias recurso da sociedade).

Estão previstos 7 mil participantes no Congresso Teológico e depois 50 mil visitantes da Feira Internacional da Família e 300 mil na vigília de oração e dos testemunhos do sábado.

O tema do VII Encontro das Famílias tem o objetivo de reafirmar a relação entre a família e o trabalho e o repouso como componentes da própria existência. 

O Prof. Donati, da Universidade de Bolonha, autor de uma pesquisa sobre a realidade da família de hoje, disse que são "o Estado e o mercado que estão destruindo a família". A família "não é um peso, um obstáculo, mas um grande recurso". Ele afirma que as famílias mais numerosas, paradoxalmente são aquelas "mais felizes, mais satisfeitas" e mais confiantes.

O organizador do “VI Congresso Mundial das Famílias”, em Madri, o presidente da plataforma de comunicação de conteúdo católico, Hazte Oir, Ignacio Arsuaga, disse que “é o Encontro mais importante de líderes pró-vida” e que permite alcançar uma dupla meta: "servir de espaço de intercâmbio e coordenação de ações em defesa da vida e da família em âmbito global e, por outro lado, oferecer a formação e a reflexão necessárias para poder defender a família natural como fator chave do progresso da humanidade" (Gaudium Press – 22-05-2012).

Ele explicou que o Congresso de Madri não é apenas católico como o evento de Milão: "nasceu do esforço conjunto de dezenas de grupos, associações e fundações da sociedade civil e de pessoas de distintas confissões". O presidente do Conselho Pontifício para a Família, Cardeal Ennio Antonelli,  ministrará uma conferência intitulada "A família natural e a revolução contra a família".

Pela importância desses dois eventos, é fundamental que acompanhemos seu desenrolar e seus pronunciamentos, especialmente a palavra do Papa em Milão. 

terça-feira, 22 de maio de 2012

A FILHA DE SIÃO: MEDITAÇÃO SOBRE MARIA

Seminarista Bruno Igor Cavalcante
3º ano de Teologia

A expressão “Filha de Sião” é comum no Antigo Testamento. Há, por exemplo, os chamados Cânticos de Sião (cf. Sl 46; 48; 76). Sião pode significar tanto Israel quanto a cidade de Jerusalém. Essa expressão vem, algumas vezes, acompanhada de outra: “alegra-te”, saudação jubilosa presente nos oráculos messiânicos de alguns profetas (cf. Zc 2,14-15; 9,9-10; Jl 2,21.27; Sf 3,14-17). Como todo crente em Israel, a Filha de Sião esperava a salvação, esperava o momento da libertação, esperava o cumprimento das promessas. Ela sabia que, apesar das infidelidades do povo, Deus permanece fiel. 

Aplicada à Maria, a expressão “Filha de Sião” adquire um significado mais profundo: de fato, como Filha de Sião, Maria também esperava a salvação, também esperava o Messias. Ela sabia muito bem que Deus não falharia na sua promessa: “Pois sabei que o Senhor mesmo vos dará um sinal: Eis que a jovem está grávida e dará à luz um filho e dar-lhe-á o nome de Emanuel” (Is 7,14; cf. Mt 1,23). Evidentemente, Maria não esperava que fosse ela a escolhida para ser a Mãe do Salvador da humanidade. Ela foi compreendendo o plano de Deus pouco a pouco: na simplicidade de sua vida, na constância de sua fé. 

Utilizando-se de duas expressões do Livro do Profeta Jeremias, pode-se dizer que Maria é a “bela”, a “delicada” Filha de Sião (cf. 6,2). É a mais ilustre Filha de Jerusalém, a personificação de Israel. Ela representa o Povo da Aliança, carregando consigo toda a sua história – de sofrimento e de grandeza. Em Maria, chega ao fim uma longa expectativa. Com Israel, Maria pode, de fato, alegrar-se: “Exulta, alegra-te, Filha de Sião, porque eis que venho para morar em teu meio – oráculo do Senhor” (Zc 2,14); “Rejubila, Filha de Sião, solta gritos de alegria, Israel! Alegra-te e exulta de todo coração, Filha de Jerusalém” (Sf 3,14). Em Maria, realiza-se plenamente a esperança dos pobres, dos oprimidos, dos sofredores; como ela, essas pessoas também esperavam incansavelmente o Messias, aquele que “exaltará os humildes” (cf. Lc 1,52; Jó 5,11). 

Maria é uma mulher privilegiada. A graça divina encontrou nela as disposições necessárias para a realização da vontade de Deus. O coração de Maria procurava o Messias: Maria não somente o encontrou, mas também o carregou no seu próprio ventre. Ela acreditou, por isso é “bendita entre todas as mulheres” (cf. Lc 1,42), por isso é a mais ilustre Filha de Sião. 

Maria, por fim, “guardava” a Palavra de Deus no seu próprio coração (cf. Lc 2,19; 2,51). No coração da Filha de Sião, essa Palavra encontrou abertura. Isto que diz o Livro do Profeta Isaias se realizou plenamente na Virgem Maria: “Como a chuva e a neve descem do céu e para lá não voltam, sem terem regado a terra, tornando-a fecunda e fazendo-a germinar, dando semente ao semeador e pão ao que come, tal ocorre com a palavra que sai da minha boca: ela não volta a mim sem efeito; sem ter cumprido o que eu quis e realizado o objetivo de sua missão” (55,10-11). Verdadeiramente, a Palavra de Deus deu seu fruto na “terra” do coração de Maria, a Mãe do Redentor; verdadeiramente, a Palavra de Deus realizou o que tinha que realizar: A Palavra se torna homem! A Palavra que, por natureza, é eficaz e poderosa, encontrou um coração capaz de acolhê-la na sua totalidade: o coração de Maria, a Filha de Sião!

domingo, 20 de maio de 2012

Dos 25 países que mais perseguem os cristãos, 18 são muçulmanos



A organização internacional Portas Abertas publicou a lista dos países em que os cristãos foram mais perseguidos em 2011. Encabeçada por um país comunista, a Coreia do Norte, a lista revela, entretanto, que os maiores algozes do cristianismo têm sido os países islâmicos. Somente dois países latinoamericanos freqüentam a lista, Colômbia e Cuba, por razões diversas. A lista ainda não contempla o tipo de perseguição que se verifica nos países ocidentais, a de matriz secularista.



Vamos à primeira parte da lista:


1º Coreia do Norte – comunista
Local no planeta onde ser cristão é mais difícil. Os cristãos são presos, torturados e mortos. No entanto, a Igreja está crescendo: há cerca de 400.000 cristãos no país. População: 24 milhões e 500 mil.

2º Afeganistão – muçulmano
Os cristãos que falam sobre sua fé enfrentam violência e ameaças de morte. Mas apesar de todos os perigos, o cristianismo continua a crescer: ainda são 0,01% da população de 30 milhões.

3º Arábia Saudita – muçulmano
A liberdade religiosa não existe nesse reino islâmico. Todos os envolvidos em reuniões religiosas não muçulmanas podem ser presos, deportados ou torturados. Numa população de 28 milhões, os cristãos contam poucos milhares, a maioria de estrangeiros.

4º Somália – muçulmano
Os poucos cristãos são fortemente perseguidos, e devem praticar sua fé em segredo. Alguns foram forçados a fugir para viver em outros países. Há pouco mais de 1 mil cristãos numa população de 9 milhões.

5º Irã – muçulmano
Os cristãos relatam violência física, ameaças e discriminação por causa de sua fé. Muitos cultos têm sido monitorados pela polícia secreta. Os cristãos são 0,4% numa população de 78 milhões.

6º Maldivas – muçulmano
Todos os cidadãos devem ser muçulmanos, e qualquer outra religião é proibida. Os cristãos são discriminados pelo governo e sociedade. Não é permitido construir igrejas ou importar materiais religiosos. Numa população de 400 mil, apenas trabalhadores estrangeiros são cristãos.

7º Uzbequistão – muçulmano
Cristãos têm suas casas invadidas, materiais cristãos são confiscados. Muitos líderes foram interrogados e agredidos pela polícia. Ainda assim, a Igreja continua a crescer. Os cristãos já somam 9% numa população de 28 milhões.

8º Iêmen – muçulmano
Em um dos países menos evangelizados no mundo, os cidadãos não podem mudar de religião. Os que se convertem ao cristianismo enfrentam oposição e possível pena de morte. Os cristãos são apenas 0,01% numa população de 24 milhões.

9º Iraque – muçulmano
A perseguição não se dá de forma sistemática. No entanto, quase todos os grupos independentes (alheios ao governo) se posicionam contra a minoria cristã. Há conversão forçada ao islã, sequestros e vandalismo nas igrejas. Os cristãos são 3% em 28 milhões de habitantes.

10º Paquistão – muçulmano
Grupos extremistas incitam o ódio contra os cristãos, o que resulta em prisões, agressões, sequestros, estupros e ataques a casas e igrejas. Os cristãos são 2,5% numa população de 170 milhões.

11º Eritreia
Mais de 2.800 cristãos estão na prisão, e seus familiares não têm notícias deles há meses e anos. O governo exige que os grupos religiosos se registrem, mas não aprova nenhum registro, desde 2002, além dos quatro principais grupos religiosos: a Igreja Ortodoxa da Eritreia, a Igreja (luterana) Evangélica da Eritreia, o Islã e a Igreja Católica Romana. Os demais grupos religiosos não têm permissão para se reunir ou atuar livremente no país e quando o fazem são perseguidos. Os cristãos somam 45% numa população de 6 milhões.

12º Laos – comunista
Todos os cristãos estão sob vigilância e as atividades da Igreja são limitadas. Os cristãos são 1,5% numa população de 7 milhões.

13º Nigéria
Constitucionalmente, a Nigéria é um Estado laico com liberdade religiosa. Durante quase 40 anos, o governo no norte deu tratamento preferencial a muçulmanos, discriminando os cristãos. Pouco foi feito para pôr um fim à perseguição e, como resultado, muitas igrejas foram queimadas e cristãos, mortos. Os cristãos são 40% numa população de 155 milhões.

14º Mauritânia – muçulmano
Não há igreja liderada por mauritanos. Os cristãos do país não conhecem muito do cristianismo e têm princípios bastante influenciados pelo islamismo. Há missionários no país, mas todos eles estão envolvidos com o trabalho de ONGs, ou possuem um emprego secular para garantir seu sustento. Os cristãos não chegam a 1% numa população de 3 milhões e 500 mil.

15º Egito – muçulmano
O cristianismo abrange em torno de 11% da população egípcia de 85 milhões, sendo considerada a maior população cristã nos países árabes. Sua participação percentual está crescendo lentamente, em função dos nascimentos em lares cristãos. A cada ano, o contingente cristão sofre baixas devido à emigração e à conversão ao islamismo.

16º Sudão – muçulmano
Desde a divisão do país, tornou-se majoritariamente muçulmano, pois a população cristã se concentra no sul. Os cristãos são hoje 3% numa população de 30 milhões.

17º Butão – budista
Os cristãos são forçados a se reunir secretamente. Aqueles que se convertem ao cristianismo enfrentam oposição da família e da comunidade. Os cristãos são apenas 1,4% em 708 mil habitantes.

18º Turcomenistão – muçulmano
Os cristãos são presos e multados. Casas e locais de culto sem registro são invadidos pela polícia. Apesar de tudo isso, a Igreja continua a crescer. Os cristãos – na maioria ortodoxos – são 9% numa população de 5 milhões.

19º Vietnã – comunista
A igreja vietnamita ocupa uma posição minoritária, abrangendo cerca de 7 milhões de pessoas ou 8% numa população de 90 milhões. Desse total, seis milhões são católicos, enquanto a maior parte dos protestantes pertence às minorias étnicas tribais. A constituição do país prevê liberdade religiosa, mas na verdade o governo restringe algumas atividades. Embora ainda persistam certas restrições às liberdades individuais, a nação tem aumentado gradualmente suas relações com o resto do mundo.

20º Chechênia – muçulmano
A Chechênia é a única “província” (a Rússia não reconhece o Estado Checheno) muçulmana no Cáucaso. Organizações islâmicas políticas e religiosas pressionam a sociedade para aderir à fé muçulmana. Elas implementam as suas próprias leis em um “país” onde a autoridade do governo central é favorável ao islamismo. Numa população de 1 milhão e 200 mil, poucos milhares são cristãos.

21º China – comunista
Os cristãos são 11% numa população de 1 bilhão e 350 milhões de habitantes. O governo procura controlar a religião através de “associações patrióticas” e persegue os que não se submetem a seu controle.

22º Qatar – muçulmano
Abandonar o islamismo é considerado apostasia e aqueles que se convertem ao cristianismo enfrentam perseguição severa. Os cristãos são 8,5% numa população de 1 milhão e 500 mil.

23º Argélia – muçulmano
Cerca de um terço dos cristãos da Argélia é estrangeiro. Apesar de haver milhares de cristãos argelinos, eles representam menos que 0,5% numa população de 35 milhões e organizam cultos em reuniões secretas nos lares.

24º Comores – muçulmano
A constituição do país prevê liberdade religiosa, mas o código penal proíbe de forma estrita o proselitismo de outras religiões que não o islamismo. Os líderes cristãos africanos dizem que Comores é a região do mundo mais difícil para se evangelizar, e quem for pego evangelizando pode ser preso e multado. Os cristãos são discriminados em todos os setores da sociedade, mas não há restrições quanto à prática religiosa particular. Os cristãos são 2% numa população de 800 mil.

25º Azerbaijão – muçulmano
Alarmadas com o crescimento da Igreja, as autoridades aumentaram a pressão sobre os cristãos. Os cristãos são 5% numa população de 9 milhões.

Entrevista com o cardeal Gianfranco Ravasi. Os agnósticos que buscam respostas muitas vezes estão mais próximos de Deus do que aqueles para os quais a fé é simplesmente um hábito mecânico”.


O “Átrio dos Gentios”, expressão que se refere ao espaço aberto do antigo Templo de Jerusalém reservado aos não crentes e separados por um muro dos judeus que participavam dos encontros de oração, tornou-se o marco de uma campanha da Igreja Católica para a abertura ao diálogo com aqueles que não concebem a transcendência e que possuem fortes convicções éticas.

O cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício para a Cultura e diretor desse projeto, é um incansável criador de eventos. O último “Átrio” ocorreu há em Palermo.

Intitulado Cultura da legalidade e sociedade multirreligiosa, ele transmitiu uma forte mensagem de condenação à máfia. Como em todos os “Átrios” que ocorreram anteriormente em diversas cidades do mundo, o cardeal Ravasi se serviu abundante e eficazmente de música, dança, testemunhos pessoais e, nesse caso, da participação das crianças.

Entre os sonhos do cardeal, nos projetos futuros há a ideia de um evento em Jerusalém, do qual participariam as personalidades que representam a cultura judaica, cristã e muçulmana. Apesar das dificuldades, ele acredita que os tempos poderão estar maduros para tal encontro. 

A seguir, estão os ponto de destaque de um diálogo realizado com Sua Eminência, que capta as reflexões sobre os principais pressupostos do “Átrio dos Gentios” e sobre as suas características particulares e específicas de dialógicas. O cardeal é famoso pelo seu profundo conhecimento da Bíblia, pelo seu intenso interesse pelas artes e pelas ciências, mas também pelas suas atividades diárias no Twitter (@CardRavasi), em que se ocupa de aforismos bíblicos e literários, para a alegria dos seus receptivos leitores.

“A ideia foi lançada por Bento XVI durante seu discurso de Natal em 2010 à Cúria e aos diplomatas internacionais credenciados junto à Santa Sé. O objetivo dos eventos do Átrio”, conta o cardeal Ravasi, “é de se comprometer no diálogo com todos os não crentes, vinculados por ideais éticos, mas incapazes de conceber a transcendência, que buscam as respostas às perguntas existenciais fundamentais dos nossos tempos. Os agnósticos que buscam respostas”, afirmam, “muitas vezes estão mais próximos de Deus do que aqueles para os quais a fé é simplesmente um hábito mecânico”.

“Estamos particularmente interessados no discurso científico e sociocultural. Para o catolicismo, o sobrenatural não aniquila a ordem natural. A fé não exclui a razão. A ética religiosa (que constitui a ética moral) está enraizada na ética natural, mas é mais comprometedora, como por exemplo no âmbito sexual”.

“Encontramo-nos em campos neutros de diálogo, não nos da teologia católica. Os não crentes podem ser definidos como agnósticos, humanistas, secularistas, até ateus”, afirma Ravasi, “mas nós insistimos no respeito recíproco. A linguagem agressiva, ofensiva, sarcástica utilizada por alguns ateus militantes não pode produzir ‘diálogo’, que, do grego, significa ‘atravessar’ um tópico para se trocar ideias”.

Os eventos dos “Átrios” foram realizadas em diversas cidades europeias, de Bucareste a Tirana, passando por Barcelona, Florença, Bolonha, Roma e Paris. O último debate ocorreu nos dias 29 e 30 de março em Palermo, intitulado Cultura da legalidade e sociedade multicultural, do qual participaram o procurador antimáfia Piero Grasso,Nando Dalla Chiesa, Remi Bague, Gian Enrico Rusconi e Giuliano Amato.

O cardeal Ravasi recorda com carinho especial o evento de Bucareste(Hungria) sobre o tema Em que crê um não crente?.

“Vieram 2.000 estudantes”, afirmou. Uma mulher que havia se declarado ateia antes que eu falasse depois me revelou: ‘Eu acho que não posso mais me considerar ateia’”.

Eis a entrevista.

Vocês ainda não organizaram um evento no Oriente Médio. O senhor não acredita que o diálogo intercultural nessa área pode reforçar as perspectivas de um maior respeito pelos direitos humanos e pelo desenvolvimento de novas democracias? Envolveria Israel no diálogo?

Eu acredito que a maior parte dos países dessa área ainda não estão prontos para o debate cultural. Mas, sim,Jerusalém seria um ponto de partida ideal. Eu convidei o embaixador israelense junto à Santa Sé para participar de um encontro regional dos embaixadores asiáticos, mas infelizmente ele não pôde intervir. Eu também convidei escritores como Amos Oz, David Grossman, Abraham Yehoshuah para outros, mas de uma forma ou de outra ainda não conseguimos tornar isso possível. Eu ficaria muito feliz de organizar em Jerusalém um encontro com intelectuais e artistas judeus, cristãos e muçulmanos.

O povo judeu ainda pode estar cético com relação às verdadeiras intenções da Igreja. Um pouco por causa dos séculos de” controvérsias” teológicas vinculantes, cujo objetivo principal era a conversão dos judeus, e um pouco por causa das milhares de conversões forçadas, os israelenses poderiam temer o proselitismo…

O nosso objetivo é propor, não impor. Os judeus, por outro lado, assim como os católicos, acreditam que a sua é a Verdadeira fé. Os judeus e os católicos compartilham muitos valores comuns relativos ao campo da moral, ao conceito de Deus e de transcendência, ao simbolismo, possuem um texto comum etc. No que se refere à ética sexual, compartilhamos a mesma visão sobre a homossexualidade e sobre o aborto etc. Existem muitas afinidades, e o diálogo com os judeus é mais simples do que com os protestantes.

As nossas visões não são realmente idênticas. Existem rabinos judeus e homossexuais, e o aborto é permitido durante os primeiros três meses de gravidez se a vida ou a saúde da mãe estão em grave perigo. Um feto é considerado um ser humano só depois do seu nascimento… Existem diversas opiniões nos diversos ramos do judaísmo: judaísmo ortodoxo, conservador, reformista, liberal, reconstrucionista, e humanista e secular.

Talvez estejamos mais próximos do judaísmo ortodoxo. No entanto, mesmo aqueles que se definem como judeus “não crentes” ou “ateus” têm um senso de identidade religiosa mais forte do que os cristãos, graças ao seu conceito de pertencimento ao povo. Quase toda a literatura americana judaica foi produzida por judeus ateus. Estamos muito interessados em empreender um diálogo cultural, antropológico com os judeus seculares israelenses e em compreender de que modo um rabino e um crente consideram um judeu ateu como Woody Allen!

O diálogo com os não crentes se tornou uma prioridade para a Igreja Católica. No 25º aniversário do primeiro Dia Mundial de Oração Inter-Religiosa em Assis, em outubro passado, a “humanista” francesa Julia Kristeva foi uma das principais oradoras.

Ela é uma pensadora excepcional. Eu li muitas de suas obras. O seu diálogo com Jean Vanier em Il loro sguardo buca le nostre ombre sobre os deficientes é repleto de humanidade, de calor materno, com introspecções psicológicas e racionalis. O seu discurso e o do rabino David Rosen foram os mais significativos da jornada. Ambos se concentraram na pessoa humana, na sua dignidade, nobreza e nos seus limites.

O senhor revelou que lamenta o fato de não ter tido a sorte de dialogar com o ateu britânico  Cristopher Hitchens antes da sua morte.

Sim, tenho certeza de que ele reconheceria uma série de valores que não podem ser reduzidos simplesmente a uma questão de células. Ele expressava uma espiritualidade. Não acredito que ele negaria a existência da alma.

Muitas vezes, o senhor cita as piadas daqueles que se definem como não crentes.

Você se refere a declarações como a de Buñuel: “Sou um ateu graças a Deus”, ou de Ionesco: “Todas as vezes que o telefone toca, eu corro na esperança de que pode ser Deus me telefonando, ou pelo menos um dos Seus anjos secretários”, ou do escritor romeno Emil Cioran que escreveu: “Quando você ouve Bach, você vê Deus nascer”, ou deWoody Allen: “Eu não sei se Deus existe, mas, se existe, espero que ele tenha uma boa desculpa”…

Em sua opinião, qual a principal preocupação religiosa compartilhada por cristãos e judeus hoje?

Eu diria a exponencial secularização da sociedade. O fato de Deus existir ou não é irrelevante para muitos. Charles Taylor expressou esse aspecto com um aforismo em Uma era secular (Ed. Unisinos, 2010): “Se Deus viesse hoje para uma das nossas cidades, a única coisa que aconteceria é que lhe pediriam os documentos”.